Cinemateque


O Escafandro e a Borboleta by blogcinemateque
fevereiro 23, 2008, 5:57 pm
Filed under: William Doc

“Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric) tem 43 anos, é editor da revista Elle e um apaixonado pela vida. Mas, subitamente, tem um derrame cerebral. Vinte dias depois, ele acorda. Ainda está lúcido, mas sofre de uma rara paralisia: o único movimento que lhe resta no corpo é o do olho esquerdo. Bauby se recusa a aceitar seu destino. Aprende a se comunicar piscando letras do alfabeto, e forma palavras, frases e até parágrafos. Cria um mundo próprio, contando com aquilo que não se paralisou: sua imaginação e sua memória.”

Adaptações nunca deixaram de ter lugar na premiação mais cool do cinema de Hollywood: o Oscar. Adaptar uma obra escrita por um individuo que dita letras com o piscar dos olhos seria uma responsabilidade delicada. O norte-americano Julian Schnabel tentou a façanha e filmou em francês O Escafandro e a Borboleta.

Rotulo a produção de excepcional e intrigante. Há tempos o cinema não era presenteado com uma ousada linguagem harmônica e dinamizada. Digamos, um drama autêntico. Um gênero perigoso, mas que funciona muito bem quando se há pretensões mais imaginativas que realistas. É fácil notar ao decorrer do longa a desenhada imaginação de Bauby na rítmica montagem usada por Schnabel. Trata-se de criatividade. Como reagir às imagens de degelo de geleiras sobrepondo a passagem em off: “Hoje sinto que toda minha existência foi uma cadeia de pequenos erros. Mulheres que não fui capaz de amar, chances que não pude aproveitar, momentos de felicidades que deixei escapar. Uma corrida cujo resultado era conhecido de antemão, mas na qual você não fracassava em apostar no vencedor. Estava cego ou surdo? Ou precisa de uma desgraça para que você veja sua verdadeira natureza?” ? E como se portar quando Schnabel usa Excerpt, de Jean Constantin, fazendo alusão moderna à cena inicial de Les Quatre cents coups, de Truffat, onde a arquitetura de Paris é vagamente conhecida por uma camera viagante? Alguns podem até estar dizendo por ai que se trata de um trabalho de edição com imagens de arquivo. Talvez. O Cinema não tem fronteiras e o clichê que ainda não existe é a criatividade.

Sendo ainda mais preciso não é apenas uma boa montagem que se ousa nesta produção. A direção de Julian Schnabel ultrapassa as margens do correto padrão de dramalhões sobre casos trágicos de invalidez. O inválido aqui são nossos olhos. Em grande parte do tempo a câmera é nossos olhos que são os olhos de Bauby. O resultado é de aflita e silenciosa reação, mas logo compensada por uma sucessão de exercícios para imaginar, como consolo, e observar passagens passadas, como boas recordações. O olhar técnico de Schnabel é curioso e insiste em nos mostrar novos ângulos e enquadramentos maravilhosos. A direção é desafiada pelo roteirista Ronald Harwood que escreve/descreve sonhos soprepondo sonhos, uma sucessão de pequenos fatos que conseguem dar uma imensidão histórica-biográfica ao filme. O humor ácido, cínico e sincero de  Jean-Dominique Bauby, o qual narra em tempo real o longa, deixa espaço para desabafos e relexões pessoais sobre o seu ego e a quem o atingia, mas o drama americano de “chorar pelo coitado” não acontece em nenhum momento. Eu, como um pseudo crítico, não nego. Lágrimas rolam ao final da produção, mas um leve sorriso explica tudo.

Ao Oscar interessou indicá-lo nas seguintes categorias: Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Montagem. Será mais um injustiçado ou uma surpresa parecida com a de O Labirinto do Fauno? De qualquer forma é um filme que deveria ter mais atenção. Uma obra excepcional!

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