Cinemateque


Pés firmes em Hollywood by blogcinemateque
março 5, 2008, 2:40 pm
Filed under: Wanderley Teixeira

A carreira de Rodrigo Santoro no Brasil deu um salto de qualidade artística absurdo com a descoberta do potencial dramático do ator em Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodansky, e logo em seguida Abril Despedaçado, de Walter Salles, ambos de 2001. Parecia que o cara com estampa de galã e repleta de garotas histéricas a seus pés, era a cada trabalho televisivo desacreditado artisticamente. Quem apostaria que em pouco tempo, Santoro se revelaria um ator de mão cheia e um dos maiores “produtos” de importação do cenário cinematográfico nacional?

Quando interpretou Neto em Bicho de Sete Cabeças, um jovem atormentado pelo conturbado relacionamento com seu pai que busca a fuga nas drogas e acaba sendo preso em uma instituição para tratamento psiquiátrico, Santoro deixou a todos boquiabertos pela densidade em sua composição e pela intensidade com que viveu alguns dos momentos mais perturbadores do filme. Já em Abril Despedaçado, Rodrigo deu vida a Tonho, filho do meio da família Breves, no sertão nordestino, incumbido pelo pai a cumprir a promessa de matar o assassino de seu irmão mais velho. No longa de Walter Salles, Santoro vive um sujeito atormentado pelo peso de uma tradição, questionando todo um sistema calcado na violência, sem maiores perspectivas, um trabalho mais discreto que Bicho de Sete Cabeças, o que exigiu uma interpretação mais contida e talvez até mais difícil que o do filme de Laís Bodansky.

As duas produções internacionais catapultaram Santoro para o exterior, inserção impulsionada pelo sucesso de crítica de Abril Despedaçado (Salles já havia sido indicado ao Oscar por Central do Brasil e este era seu primeiro filme logo depois do sucesso protagonizado por Fernanda Montenegro) e pela sua posterior campanha para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Tudo contribui para que Santoro aparecesse em premiéres e conhecesse figurões de Hollywood. Foi questão de tempo para que Santoro deixasse um pouco de lado as telenovelas brasileiras e investisse em sua carreira no cinema, parecia que o ator havia encontrado seu caminho e feito às pazes com o público.

Desde o começo o ator deixou bem claro que não havia maiores ambições em suas empreitadas internacionais, ressaltando que seus papéis não passavam de singelas participações, como foi o caso de “As Panteras Detonando”, de 2003, blockbuster protagonizado por Cameron Diaz, Demi Moore e Drew Barrymore. O filme era uma continuação do rentável “As Panteras”, de 2000, e rendeu a Santoro momentos nada inspirados. Boa parte do tempo, o ator desfilava entre Moore e Diaz sem camisa e com no máximo duas falas durante toda a projeção. “As Panteras Detonando” explorava muito mais o físico de Santoro do que seu potencial artístico. É perdoável e assumido pelo próprio ator como um primeiro passo, uma experiência e até uma diversão. No mesmo ano, Santoro assumia o posto de galã da norte-americana Laura Linney em “Simplesmente Amor”, de Richard Curtis, que já contribui para trazer aos cinemas comédias românticas como “O Diário de Bridget Jones” e “Um Lugar chamado Nothing Hill”. Para se ter uma idéia novamente do absurdo, o personagem de Santoro se chamava Karl e era um brasileiro (alguém conhece algum brasileiro chamado Karl aí?). Sem a habitual lente de aumento, “Simplesmente Amor” é um filme bastante satisfatório e repleto de momentos inspirados, um resultado bem melhor que o de “As Panteras Detonando”, tanto de bilheteria quanto de crítica. Outro trabalho do ator neste ano foi o telefilme “The Roman Spring of Mrs Stone”, Santoro interpreta um mendigo e contracena com Helen Mirren.

Continuava difícil perceber o ator de Bicho de Sete Cabeças e Abril Despedaçado nestas produções, até porque é difícil mesmo para um ator latino (muito mais difícil do que para um diretor,por exemplo, que tem o benefício de se esconder detrás das câmeras), ainda mais um brasileiro, trilhar uma carreira no exterior. Os primeiros passos devem ser modestos, e assim o foram para Santoro.

Intercalando suas produções internacionais com as nacionais, Santoro arranjou tempo para se dedicar a filmes como “Carandiru”, de Hector Babenco, (candidato ao Oscar de filme estrangeiro em 2003 do Brasil) e “A Dona da História”, de Daniel Filho, além da minissérie para a tv “Hoje é dia de Maria”. Em 2004, uma grande oportunidade surge através de um material improvável: um comercial para a tv. Não se tratava de um comercial qualquer, era uma peça publicitária do perfume Channel no 5 dirigida por Baz Luhrmann, paparicado por todos desde que trouxe ao mundo “Moulin Rouge! Amor em Vermelho”, e protagonizada por Nicole Kidman. Para se ter uma idéia o comercial original tinha cerca de dez minutos e o tema era inspirado no musical do diretor, Santoro era um escritor boêmio e Nicole era uma grande estrela de cinema. Trata-se de um dos filmes publicitários mais bonitos dos últimos anos e uma oportunidade de ouro de estar sendo dirigido por um visionário e contracenar, mesmo que por pouquíssimos minutos, com uma das maiores estrelas de Hollywood (houve até beijo!).

Nos próximos anos os papéis pareciam melhores. Em 2006 surge a oportunidade de participar do seriado Lost, grande sucesso da tv norte-americana, interpretando um personagem chamado Paulo (não consigo escrever mais do que isso já que não tive a oportunidade de conferir a participação). Já em 2007, Santoro teve a oportunidade de viver um personagem interessante o vilão Xerxes da produção “300”. Soberano dos persas, Xerxes move todas as forças para aniquilar os últimos resquícios da civilização grega e encontra no povo espartano liderado por Leônidas um grande obstáculo para seus planos. Para alguns a figura de Santoro em “300” parece meio ridícula, exageradamente maquiado, Santoro teve sua voz modificada (a graphic novel na qual o filme se baseou caracteriza a voz do personagem como um trovão). Mas é indubitavelmente o personagem mais instigante para Santoro em sua carreira internacional, lhe rendendo até indicações ao MTV Movie Awards de melhor vilão do ano, junto a figurões como Meryl Streep (O Diabo veste Prada) e Jack Nicholson (Os Infiltrados). “300” foi sucesso absoluto de bilheteria e trouxe Rodrigo Santoro em uma participação de destaque que pode contribuir muito para seu sucesso nos EUA.

Parece mais do que óbvio que um dos fatores que ajudam o ator a ter boas oportunidades lá fora, é o sucesso que Santoro faz entre o público feminino, o que ele usa a seu favor para abrir portas e posteriormente mostrar que veio para fazer a diferença, não se limitando somente a satisfazer os sonhos de adolescentes histéricas, como teve a oportunidade de fazer ano passado com “300”. As oportunidades vêm a passos lentos, como não poderia deixar de ser já que os norte-americanos relutam em aceitar outras culturas, mas não há urgência. Interpretar em uma língua que não seja a de origem também não parece ser das tarefas a mais fácil Carreiras são moldadas com calma, superação e aperfeiçoamento. Chegar onde Rodrigo Santoro chegou é um privilégio para poucos e me parece imprudente duvidar de seus próximos passos.



Desejo e Reparação by blogcinemateque
fevereiro 22, 2008, 9:18 pm
Filed under: Wanderley Teixeira

Este foi um ano privilegiado. Poucas vezes a Academia selecionou tão bem seus indicados na categoria principal, a de melhor filme. Todos os cinco concorrentes rompem tradicionalismos, o estilo “quadradão”, que por tantas vezes a Academia já caiu de amores, e apresentam novos horizontes para o cinema internacional, sobretudo o norte-americano. No Oscar 2008, até mesmo um representante dos clássicos romances de guerra inglês, “Desejo e Reparação”, desestrutura todas os clichês do seu gênero.

Dirigido por Joe Wright, “Desejo e Reparação” foi indicado a sete estatuetas, são elas: melhor filme, melhor roteiro adaptado, melhor atriz coadjuvante (Saoirse Ronan), melhor trilha sonora, melhor fotografia, melhor direção de arte e melhor figurino. A obra literária que o originou, “Reparação”(Atonement) de Ian McEwan, é detalhista na análise psicológica de seus personagens e inovador por mexer com a estrutura narrativa de um romance, sem descaracterizá-lo como essencialmente dramático. Sua adaptação para o cinema, que acabou recebendo o título brasileiro de “Desejo e Reparação”, é roteirizada por Christopher Hampton e dirigida por Joe Wright e preserva as principais características do romance , principalmente no ato inicial onde organiza muito bem a tensão sexual existente entre Robbie(James McAvoy), Cecília(Keira Knightley) e Briony(Saoirse Ronan). . “Desejo e Reparação chega a estar no mesmo nível que o livro de McEwan em profundidade, revolução e sensibilidade. Apesar do trabalho impecável, Hampton deverá travar uma batalha difícil com dois diretores autores das obras que mais receberam indicações ao Oscar, Paul Thomas Anderson de “Sangue Negro” e Joel e Ethan Coen de “Onde os fracos não têm vez”.Vencer nesta categoria seria uma surpresa merecida.

Um único fator deixa “Desejo e Reparação” em desvantagem com relação a seus concorrentes, o longa não rendeu a seu diretor Joe Wright uma indicação. O que é bastante injusto já que o trabalho de Wright é bem melhor do que o de Jason Reitman em “Juno”, indicado como melhor diretor somente para seu filme merecer estar entre os cinco melhores do ano(seria vergonhoso deixá-lo como melhor filme com apenas três indicações). Wright é um dos mais promissores talentos inglês, mesmo sendo seu segundo filme, “Desejo e Reparação” parece ser trabalho de veterano. A câmera de Wright valoriza pequenos gestos de seus personagens, valorizando a interpretação de seus atores, e mesmo em cenas grandiosas consegue manter domínio sobre os elementos em cena, como acontece com a seqüência sem cortes da retirada de Dunquerque. A ausência de seus protagonistas da lista de indicados também é sentida, nem digo por Keira Knightley que está apenas correta, mas não mencionar o trabalho de James McAvoy neste filme e indicar Tommy Lee Jones ou até mesmo Johnny Depp(que me desculpem seus fãs) por trabalhos inferiores ao dele foi uma esnobada sem sentido algum. A única chance de “Desejo e Reparação” levar algum prêmio de interpretação é com a garota Saoirse Ronan(pena terem ficado de fora também Vanessa Redgrave e Romola Garai que interpretam a mesma personagem que Ronan em diferentes fases), e mesmo assim parece ser bem difícil já que os holofotes estão apontando, no momento, para Cate Blanchett, Ruby Dee e Amy Ryan.

“Desejo e Reparação” também foi indicado nas categorias fotografia, direção de arte e figurino. Todos belíssimos, mas discretos demais se os compararmos a seus concorrentes. Os figurinos coloridos, de “Elizabeth: A Era de Ouro”, e o sombrios, de “Sweeney Todd”, parecem chamar mais a atenção ; a direção de arte de “A Bússola de Ouro” e “Sangue Negro” ganharam recentemente o prêmio do sindicato de diretores de arte e  Roger Deakins parece favorito a levar a estatueta de fotografia, disputando com ele mesmo por “O Assassinato de Jesse James” e “Onde os fracos não têm vez”. A maior chance do drama inglês neste Oscar é com a trilha sonora de Dario Marianelli, disparada uma das melhores da temporada e uma das mais elogiadas. Mais do que merecido já que a trilha de “Desejo e Reparação” é incontestavelmente memorável, inserindo em diversos momentos batidas de uma máquina de escrever em sua composição.Quando estreou no Festival de Veneza em Agosto de 2007, “Desejo e Reparação” surgiu como grande favorito à estatueta do Oscar, título que desapareceu com a estréia de outros longas no circuito norte-americano, pairando uma incerteza de vitória do filme na grande festa do cinema, apesar de já estar certa sua indicação. É difícil a Academia premiar um filme que não tenha indicação como melhor diretor, mas a possibilidade não deve ser excluída. Se os votantes do Oscar preferirem um filme mais palatável ao público, não premiará “Onde os fracos não têm vez” e muito menos “Sangue Negro” apesar do favoritismo, tampouco acredito na vitória de “Conduta de Risco” e “Juno”. “Desejo e Reparação” pode surgir como uma grande surpresa, e uma bem-vinda surpresa na noite do dia 24.



Aberrações e estratégias by blogcinemateque
fevereiro 16, 2008, 8:26 pm
Filed under: Wanderley Teixeira

Não é de hoje que as distribuidoras nacionais cometem verdadeiras grosserias com os títulos originais da maioria dos filmes que lançam em circuito. A tradução ao pé da letra muitas vezes não parece ser a opção mais agradável na língua portuguesa, mas a preguiça e a falta de criatividade aliadas ao apelo comercial de determinados títulos encontra caminho fácil para a elaboração de verdadeiras pérolas.

Quando o público vai ao cinema e escolhe o filme que vai assistir pelo cartaz, trailer e título dos filmes(ou seja, material publicitário), não se dando ao trabalho de ler qualquer coisa a respeito da programação cinematográfica da semana, a criação dos títulos nacionais parecem fazer certo sentido. Fica fácil cair nas armadilhas das distribuidoras.

Tempos atrás estava na moda a inclusão da palavra mágica “segredo” de maneira desnecessária em vários títulos. Filmes como “Vera Drake” e “Brokeback Mountain” foram chamados por aqui de “O Segredo de Vera Drake” e “O Segredo de Brokeback Mountain”, estratégia desnecessária e enganosa, dando a entender que há algum tipo de revelação bombástica, algo inimaginável por trás de suas tramas. A primeira é a história de uma senhora que realiza abortos clandestinos e a segunda o romance entre dois cowboys, “escândalos” mostrados desde o início da narrativa e sem objetivo algum de gerar suspense nas platéias. O mesmo pode ser dito de “The Good German” que foi chamado de “O Segredo de Berlim”.

Como citei “Vera Drake”, devo falar no estranhíssimo desconforto que as distribuidoras tem em manter o título original quando este é o nome de um dos personagens ou de um lugar. Neste caso, algum subtítulo tem que ser criado, para deixar óbvia a temática central do filme, ou o título original é ignorado e cria-se um novo título nada original(o que causa estranheza). Isto aconteceu com “Moulin Rouge!” que recebeu o subtítulo “Amor em Vermelho” para que ficasse o mais claro possível que o filme era essencialmente um romance, já que a Fox não achou conveniente substituir o nome do cabaré parisiense por qualquer outra coisa. Outro caso, mais recente, é o de “Michael Clayton”,  indicado ao Oscar deste ano que recebeu o título nacional de “Conduta de Risco”. É evidente que por trás disso há um medo que a Imagem Filmes(distribuidora do filme no país) teve de perder um público que não se rende ao apelo da estrela de George Clooney, muito menos à trama do longa, e que precisa de uma clara indicação no título de que tipo de peixe está comprando. Denominado “Conduta de Risco” passa a ser mais fácil o filme render algo nas bilheterias, as palavras denunciam uma trama de suspense(gênero bastante popular).

Só para constar uma lista absurda de adaptações recentes de títulos, inquestionavelmente desconfortantes: “Desejo e Reparação”(“Atonement”, de onde tiraram este “desejo” que imediatamente nos remete a sexo, apelo puro), Jogos do Poder(“Charlie Wilson’s War”), “Uma Garota Irresistível”(“Factory Girl”), “Os Indomáveis”(3:10 to Yuma).

Há casos em que a rejeição do público por títulos esdrúxulos é tanta que estes são esquecidos e por costume eles acabam conhecidos muito mais pelo original do que pelo nacional como foi o caso de “My Fair Lady”(“Minha bela dama”),”Blow-up”(“Depois daquele beijo”), Annie Hall(“Noivo neurótico, noiva nervosa”) e um dos mais recente, “Match Point”(“Ponto Final”).

Não culpo as distribuidoras por completo. Entendo a necessidade de fazer o filme render alguma coisa na Box Office nacional. “Pequena Miss Sunshine” e “Sobre meninos e lobos”( este último um dos raros casos em que o título nacional supera o original) renderam pouco quando estrearam por aqui, quem sabe se estreassem como “Garota norte-americana que sonha em ser miss viaja com a família em uma kombi amarela” ou “Assassinato de adolescente gera fúria implacável de um pai em busca do assassino de sua filha” não teriam destino diferente.

Não se trata de frescura de cinéfilo radical, até porque a fidelidade canina ao título em inglês nem sempre parece possível, mas um pouquinho de imaginação não faria nada mal. Dica para os desavisados? Antes de assistir qualquer coisa, informação é fundamental. Ir ao cinema baseado em material publicitário pode resultar em surpresas desagradáveis.