Cinemateque


12 Homens e uma Sentença by blogcinemateque
maio 30, 2008, 6:53 pm
Filed under: Wally Soares

O ambiente é um só. Os personagens principais são doze. E a tensão vem não de corridas alucinantes, lutas agilizadas e explosões, mas de diálogos. A força do filme que marca a impressionante estréia de Lumet nos cinemas é uma que vem sendo erradicada cada vez mais no cinema contemporâneo, cuja tensão vem mesmo apenas da ação. Era uma vez onde o motriz de um filme se relacionava ao estímulo intelectual, proporcionado por debates, diálogos e personagens multidimensionais, cuja ambigüidade e autenticidade impressionavam e – mais importante – fascinavam a audiência. Nesse filme, temos doze personagens espetacularmente reais e verossímeis, cujas atitudes despertam interesse e diálogos despertam o envolvimento. Por isso, não é de se estranhar que, em menos 30 minutos de filme, já estamos presos, interessados e completamente movidos pelo dilema principal. Quando bate uma hora de filme, estamos exasperados. O desafio moral e psicológico do roteirista genial Reginald Rose é um sensacional, que ganha intensidade nas mãos de Lumet, que carrega seu filme com atmosfera e sempre soando autêntico.

Outro motriz e uma grande virtude do filme é seu elenco. Difícil escolher qual representa mais brilhantismo. De Henry Fonda soberbo à Lee J. Cobb, os doze demonstram capacidade acima do comum. Estão soberbos. A tensão muitas vezes bem deles. Da ambigüidade de uns e da ignorância de outros. Certos momentos do filme o deixam morto de vontade de socar alguém, e outros simplesmente o deixam roendo as unhas ou soando frio. Uma especialidade de Lumet, que mais a frente de sua carreira iria tocar em feridas como em Rede de Intrigas. Seu filme é intensamente relevante, no sentido de não só retratar de uma forma estupenda todas as fraturas do homem e seus pontos fracos, mas ao realizar uma profunda análise de como o sistema judiciário é falho e ultrajante. Culpa da ignorância humana? Talvez.

Lumet não oferece respostas. Seu filme é um turbilhão de questionamentos, que tocam profundamente e mechem com sua cabeça. Dos quase cem minutos de filme, apenas três não se encontram na sala do Júri, que toma o resto do filme. Por isso, o clima de claustrofobia é essencial. Lumet vai deixando seu cenário cada vez menor com sua câmera, como se o ambiente fosse ficando mais enxuto. De repente, doze pessoas é demais para caber naquela pequena sala. Eles começam a soar, nós também. Explico: o filme começa a com uma visão ampla da sala. A distância entre os personagens é perceptível e grande. Mas logo a câmera desce e fica alinhada com os personagens em tamanhos reais. Culminando em um ponto onde foca apenas olhares e facetas. Genial! Mas o mais incrível no filme é a satisfação ao final. Dificilmente encontramos finais assim em histórias como essa, mas a intenção de Lumet é exatamente desmascarar essa palhaçada, e mostrar como deve ser feito. Por isso, é extremamente prazeroso vermos um dos personagens – depois de um comentário extremamente preconceituoso acerca dos pobres – ser mandado sentar e calar a boca. Resultado: ele nunca mais a abre pelo resto do filme. O filme é isso. Satisfação, genialidade e puro brilhantismo. Dificilmente conseguimos tirar de nossa cabeça o personagem de Henry Fonda que, de branco, simboliza a paz com que chega para desmascarar ignorância e hipocrisia. Precisamos de mais jurados – e pessoas – como ele no mundo. E diretores como Lumet no cinema.



Donnie Darko by blogcinemateque
maio 30, 2008, 6:41 pm
Filed under: Wally Soares

O clima está pesado. A aura de mistério envolve enquanto uma câmera segue uma estrada até encontrar o adolescente Donnie Darko se levantando, no meio do nada. Acordando para o amanhecer de mais um dia comum em sua vida, e contemplando mais um de seus atos de loucura. Numa simples tomada, o diretor estreante Richard Kelly já nos mostrou excepcionalmente bem que esse simples adolescente é estranhamente único e sofre de alguma espécie de distúrbio. A música sobe e Donnie anda de bicicleta até sua casa, numa das muitas cenas memoráveis do filme. Fato: Kelly é um diretor incomum e original, que acredita não só no poder da música e do visual, mas consegue dizer rios sem ter que seus personagens abram a boca. Um dos elementos mais impressionantes em seu filme é o utilizo da música. A compilação de canções inesquecíveis dos anos 80 serve para ilustrar a época na qual o filme se passa e – muitas vezes – os sentimentos de seu personagem. Fora o fato de conduzir completa nostalgia e serem todas magníficas canções. Uma ferramenta essencial usada pelo diretor não só para fazer o espectador sentir mais a jornada, mas que se torna completamente importante no fluir da narrativa e na criação de estilo e autenticidade.

A obra, portanto, não se limita a isso. Complexo e sedutor, a jornada de Kelly (que também é roteirista) marca pela densidade e a competência com a qual ronda assuntos importantes, sejam eles familiares, morais, éticos ou sociais. Mas mais importante: psicológicos. Ao compor seu personagem maravilhosamente bem, nota-se uma clara submersão no drama psicológico, ao passo que os sentimentos se tornam mais importantes e essenciais para a compreensão da narrativa do que qualquer outro elemento. Darko se torna multidimensional e – mais importante – nós, espectadores, começamos a nos importar por ele. É óbvio, com isso, que o filme seja apoiado completamente no personagem e na sua visão do mundo. Ele tem seus sentimentos particulares e Kelly nos convida a interpretá-los, enquanto Darko se infiltra em uma alucinante história de sonhos, coelhos e viagem no tempo. O prazer de se assistir ao filme é único, graças a forma como ele flui, baseado no estilo original de Kelly e no elenco sempre competente, com destaque à um Jake Gyllenhaal ainda em início de carreira mas completamente admirável. Mas mais prazeroso ainda é tentar compreende-lo. Uma obra para poucos, o filme ronda o drama psicológico ao mesmo tempo em que o gênero da ficção, ao sermos envolvidos não só para dentro de sonhos, pensamentos e sentimentos, mas a uma trama que ousa tocar na complexidade da viagem no tempo, no seu fundamento em relação á realidade. Por isso, apesar de se encaixar no gênero da ficção, o filme de Kelly é realista. Ou seja, quando o céu inesperadamente se escurece, nuvens se tornam ameaçadora e começamos a finalmente entender e encaixar todos os elementos e enigmas que nos foram impostos, não parece que estamos em uma ficção. Acreditamos em tudo que vemos e, mais importante, no que sentimos. O clímax é emocionante e de arrepiar, forte, poderoso e fascinante, em todos os sentidos da palavra.

Primeiro, por causa da surpreendente forma com que Kelly finaliza seu filme, conseguindo com grande êxito não deixar nenhuma ponta solta. Segundo pela carga emocional. Ao som de “Mad World”, Kelly nos mostra todos os seus vários personagens no momento mais crucial da história. Somos tocados pela sensibilidade do cineasta, que investe tanto em seus personagens, e satisfeitos por ele nunca cair no lugar comum, no maniqueísmo e principalmente no desnecessário. Uma obra para muitas visitas, nada aqui é descartável. Por isso valorizo tanto a versão do diretor que, bem mais polida, é ainda visualmente e sonoramente muito mais sedutora, contém mais cenas, todas importantes para o desenvolvimento da trama. A compreensão é aberta, e as interpretações diversas. Teorias rolam soltas mas o sentimento é sempre o mesmo. Donnie Darko é simplesmente um daqueles filmes que toca, profundamente, deixando sua marca no espectador. Por isso é fácil entender o porquê de ser um fenômeno cult tão importante para o cinema e para os cinéfilos.

“Donnie Darko” é, também, um filme subestimado. Muitos se contentam a apenas assisti-lo. Poucos se dão ao trabalho e ao prazer de senti-lo e compreende-lo. Há muito mais do que os olhos vêem nesse filme, que quer falar sobre uma família disfuncional ao mesmo tempo em que realiza uma dura crítica à alienação da sociedade. No meio disso tudo, claras homenagens à força da música, completo domínio de estilo e elenco, além de uma extrema meticulosidade na narrativa, que maravilha, entretém e impressiona. Ora pela autenticidade e a originalidade, ora pelo brilhantismo e a genialidade. Cinema obrigatório, que aguça os sentidos, meche com sua cabeça e te faz pensar sobre os confins do universo, as surpresas que o destino nos reserva, e o quão manipulador e alienada nossa sociedade se torna, ao passo que pessoas param de sentir, se deixam levar pelo comum, pela rotina e pela mediocridade. Kelly demonstra, com isso, dominação completa de seu roteiro, em um exemplo claro do quanto é melhor quando um diretor adapta seu próprio trabalho.



O Poderoso Chefão by blogcinemateque
abril 19, 2008, 5:43 pm
Filed under: Wally Soares

Um dos filmes mais celebrados, e uma das mais sólidas obras-primas do cinema em todos os tempos, “O Poderoso Chefão” teve início em um romance grosso e maravilhoso, que investigava a fundo as engrenagens por trás da máfia. Escrito por Mario Puzo, tive o imenso prazer de ler a obra antes mesmo de testemunhar a obra cinematográfica maravilhosa de Francis Ford Coppola. Puzo soube arquitetar, com imenso detalhismo e afeição, o poder de uma grande família siciliana nos Estados Unidos, cujos membros andavam sobre a sombra do implacável Don Vito Corleone, o padrinho do título, e o respeitado chefe de família. O que tornou o livro tão fascinante – e impressionante – além da atenção magnífica a detalhes, foi a forma como foi escrito, criando personagens autênticos, reais. Diálogos genuínos e poderosos e uma trama intrincada de suspense e violência, que refletia de forma brutal a realidade do mundo, onde vida e morte se uniam como um. O livro, portanto, me marcou, e permanece, até hoje, como uma das melhores leituras que já realizei. Se não for a melhor.

Assistir ao filme, então, foi um prazer à parte. Puzo assinou o roteiro de seu próprio livro, e isso obviamente faz alguma diferença. Ele soube escolher os momentos mais importantes, deixou a gordura de lado, e decidiu trabalhar o que importava, seu foco nem sempre sendo os negócios da família, mas a parte pessoal, emocional. Isso fez com que não se tornasse um filme “apenas” sobre a máfia. Tanto que tal palavra nem é utilizada ao longo do filme de quase três horas de duração. É um filme sobre família, lealdade, crime e a ambigüidade do homem, sua capacidade de mudar. De sofrer mudanças, e provocá-las. Nesse sentido, encontramos no personagem de Michael Corleone (filho mais novo do chefe da família) um dos personagens mais densos e fascinantes da história do cinema. A metamorfose de Michael é algo de deslumbrar. Ele foi tão bem escrito que assusta, e a performance maravilhosa de Al Pacino, tão cheia de vida, contém virtudes e autenticidade, que o torna em um ser não só tridimensional, mas em uma pessoa com quem podemos nos identificar. Ele não queria estar ali, fazendo o que ele faz, mas aprende a aceitar o seu destino, porque parece entender como a vida funciona, e se vê preso no posto de servir à sua família e ser leal ao seu pai, que sacrificou e fez tanto por ele. O pai, Vito Corleone, por sua vez, foi interpretado com brilhantismo por Marlon Brando, cujo desempenho provoca influencias até hoje. Sua criação do personagem foi muito além do esperado, se revelando uma composição original e intensa. Alias, o elenco todo do filme é majestoso. E tinha que ser. Quando temos personagens tão bons, seria tolo desperdiçá-los em atores que não soubessem capturar a alma de cada um, e é com orgulho que digo que ninguém do elenco decepciona, só engrandece o resultado, o tornando ainda mais vibrante.

Encontrar falhas nesse filme é como procurar uma agulha em montinho de palha. Praticamente impossível. O ritmo é sempre adequado, as cenas sempre oferecem alguma espécie de importância, seja à narrativa, à construção dos personagens ou pelo menos ao entretenimento, e aspectos técnicos só satisfazem. Fotografia muito boa, edição impecável, trilha sonora assombrosa de tão perfeita, capturando o espírito do filme, oscilando entre o sombrio e o alegre. Em questões de adaptação, pouco foi deixado de fora, sendo que algumas subtramas foram cortadas, detalhes excessivos cancelados e apenas uma narrativa realmente importante foi deixada de fora, que é a que conta o passado de Vito Corleone, desde sua infância na Sicília, sua chegada aos Estados Unidos e sua iniciação do mundo do crime. De inicio, seria algo entristecedor, já que é uma narrativa rica e essencial para a formação do personagem, mas já que os direitos do livro foram comprados antes mesmo deste ser terminado, e os rumores de uma seqüência surgiam antes mesmo de terminado as filmagens do primeiro filme, provavelmente a trama tinha sido propositalmente cortada, para ser inserida no segundo capítulo da saga, quase tão bom quanto essa obra original. Também escrito por Puzo e dirigido por Coppola, “O Poderoso Chefão, Parte II” tem mesmo adaptado da obra literária de Puzo apenas essa narrativa, sendo o resto toda criação a parte.

O que tem a ser dito mesmo é que “O Poderoso Chefão” filme é extremamente fiel ao livro, em essência e conteúdo. Puzo foi esperto na adaptação, e Coppola foi a escolha mais que sensata para dirigir. No seu filme, ele captura com maestria toda a cultura italiana, em casamentos, em expressões, diálogos e modos de vida, um grande feito que ajuda trazer autenticidade ao filme. Ou seja, no final das contas, Coppola e Puzo foram um complemento um para o outro. Não consigo imaginar um filme tão bom quanto esse se não tivesse aqueles mesmos movimentos de câmeras eletrizantes. Posicionamentos majestosos, que capturavam longos planos e deixavam tomadas grandiosas e perfeitas. Coppola foi um mestre, e é um cineasta genial. Juntando sua habilidade inquestionável de conduzir e contar uma história que é ao mesmo tempo puro entretenimento e fascinação, com a força do texto magnífico de Puzo, que possui a ambição de desvendar os vários segredos da mente humana, ao mesmo tempo em que cria paradoxos e questionamentos acerca do poder da religião, a força da mentira e os rumos que nossas vidas podem tomar por causas nobres, e temos uma obra-prima. Irretocável.



O Iluminado by blogcinemateque
abril 19, 2008, 5:31 pm
Filed under: Wally Soares

Stephen King é o mestre do horror. Stanley Kubrick é o mestre do cinema. Ambos os artistas possuem muito mais que apenas as iniciais em comum. Visionários, imaginativos e poderosos, são capazes de levar o espectador a um outro mundo e aterrorizá-lo. Mais ou menos o que ocorre em O Iluminado, adaptação cinematográfica de Kubrick da obra de King. Pode-se dizer que se trata de uma adaptação corriqueira. O resultado final não é, digamos, o mais adequado e fiel. Mas ainda não chegamos lá. Sabemos o quanto Kubrick é revolucionário no cinema, vide seus melhores filmes, “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Laranja Mecânica”, e o que ele fez com a obra de King em mãos foi mais do que visualizar e adaptar, ele imaginou e criou. Sim, ele modificou tremendamente o texto arrepiante de King. Não é por nada que o autor tenha detestado o filme. E eu não posso repreendê-lo. O filme “O Iluminado” é um grande feito cinematográfico, mas é uma adaptação realmente injusta e nada fiel ao trabalho original. Kubrick não apenas modificou passagens, diálogos e criou cenas novas, mas ele mudou consideravelmente o tom do horror de King. E que horror! Não é por nada que nomeiam a obra de uma obra-prima do terror. Estão mais que certos. Ler “O Iluminado” é um feito difícil, alias, são centenas de páginas, mas é mais do que gratificante, principalmente pelo aspecto psicológico, pelo estudo do personagem principal. Nesse sentido, Kubrick não deixou King nas mãos. O personagem interpretado tão intensamente por Jack Nicholson é tão marcante, denso e fascinante como o do livro, mesmo que seu destino seja modificado levemente.

A obra-prima de King é um trabalho de várias camadas. Inicia-se contando a história inicial da família Torrance, que entre dificuldades, problemas domésticos e no trabalho, vão se tornando bem próximas do leitor, que vai investigando e aprendendo, pouco a pouco, todas as nuances desses personagens que os tornam tão reais e maduros. Por isso fica fácil identificar-se com o garotinho assombrado por uma habilidade terrível, o pai alcoólatra que tenta recuperar sua vida ao lado da mulher e do filho, e a mãe protetora, que muitas vezes não sabe exatamente o que fazer. Esse trabalho todo de construção de personagem, personalidade e passado é ignorado por Kubrick. No filme, começamos logo com a ida dos Torrance até o hotel Overlook, onde irão hospedar-se. Local onde o pai, Jack Torrance, irá trabalhar durante o inverno, momento de isolamento para o local. Em flashbacks, pouquíssimos por acaso, aprendemos como Jack conseguiu o emprego em uma entrevista muito bem escrita e temos algumas cenas dos Torrence antes de partirem, onde aprendemos sobre o dom de Danny, o garotinho assombrado. Ou seja, no filme, acabamos demorando um pouco mais para nos identificarmos com todos os personagens, não esquecendo claro, da figura importante de Dick Halloran, personagem essencial. Alias, no livro acontece uma aproximação valiosa entre leitor e Jack, onde observamos sua transformação assustadora. No filme, a aproximação entre espectador e personagem é mais distante, mas é admirável como Kubrick conduz a transformação do personagem, sem dúvida o que faz do livro/filme obras tão aterrorizantes.

Ou seja, a adaptação de O Iluminado é, na verdade, um encontro intenso entre dois mestres, um da literatura e outro do cinema. Semelhantes e distintos, é um choque de personalidades, escolhas e idéias. Para mim, o livro de Stephen King é uma obra perfeita. Ela mexe com os sentidos, provoca arrepios e uma grande sensação de medo, acumulada pelo mistério sempre pungente e os fortes personagens presentes na trama. Já o forte do filme de Kubrick não está no texto, mas na forma como é conduzido. É a direção marcante de Kubrick que faz da sessão um primor técnico e cinematográfico. A união sempre presente nas obras do gênio de visual e som funciona igualmente bem aqui. A trilha sonora aguda amedronta, e a câmera de Kubrick investiga os corredores e os confins do hotel com um senso intenso de mistério e suspeita, como se algo maior, algo maléfico se escondesse por trás daquelas paredes. É portanto, uma adaptação bem solta. Quem espera fidelidade será terrivelmente decepcionado, mas quem assiste para testemunhar uma verdadeira obra de terror sairá arduamente eletrizado pela sessão, que é puro terror e medo. Mas mesmo assim, Kubrick ainda parece capturar muito da essência do livro de Stephen King, que fala sobre a fragilidade do ser humano e sua tendência a sempre ser devorado pelos seus vícios. É sobre o instinto maternal, o poder da inocência e os males que habitam nossa mente.

Torna-se curioso saber, com isso, que Kubrick se declarou, na época, fascinado pelo escritor. É dito que o cineasta ligava a altas horas para a casa de King fazendo perguntas acerca de religião e Deus. No primeiro telefonema, quando King foi abordado por Kubrick acerca da adaptação, Kubrick começou a falar sobre histórias de fantasma otimistas, que sugerem que humanos sobrevivem à morte. A pergunta de King logo depois foi se eles sobreviviam ao inferno. Depois de longa pausa, a resposta de Kubrick veio: “Eu não acredito no inferno”. Mas entre conversas inspiradas, muita discordância. Kubrick odiou, por exemplo, o casting de Jack Nicholson no papel. Para ele, seria mais impactante ver alguém aparentemente “normal” cair na loucura, e não alguém que já aparentava ser louco desde o ínicio. Bem, não consigo imaginar um “O Iluminado” sem o poder tour de force de Nicholson. O fato é que o filme de Kubrick não é uma adaptação perfeita. Alias, não é um filme perfeito. Mas é uma grande obra, tão poderosa quanto o livro de King, talvez até mais aterrorizante, justamente pela forma original com qual é conduzida. A verdade é que em casos de adaptação cinematográfica, é preciso isolar a obra original do resultado final. É complicado comparar, e injusto até. São duas visões, distintas e próximas, de uma louca história sobre o temor eterno de uma mente sem limite. Fascinante é pouco. Palmas para ambos os mestres.



Sin City – A Cidade do Pecado by blogcinemateque
março 19, 2008, 4:01 pm
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“Uma tradução, não uma adaptação.” Para Robert Rodriguez, seu filme neo-noir Sin City, adaptado das obras em quadrinho de Frank Miller está mais para uma tradução. E ele está certo. Produzido, escrito e dirigido por ele e Frank Miller em pessoa, Sin City abraça inúmeros gêneros com seu estilo único e suas histórias ousadas. Especificamente, é uma adaptação (leia-se tradução) de graphic novel mais que perfeita, para outros, a retomada do genuíno estilo do neo-noir. Os autênticos filmes noir morreram anos atrás, muitos dizem que foi com A Marca da Maldade, mas foi o suficiente para deixar sua marca no cinema e um legado de influências. Considero Sin City um ótimo neo-noir. Para começar, pelo seu visual legítimo. Afinal de contas, o termo “film noir” traduz-se para francês como “filme preto”, e Sin City, numa escolha ousada e certeira, é quase que completamente preto & branco, tirando o vermelho, o amarelo e a cor dos olhos de seus personagens.

Falando nisso, acho louvável essa escolha de deixar o filme em si preto & branco, mas deixá-lo marcado com outras. O vermelho destaca-se como vestidos, batons e principalmente, sangue. Na cidade do pecado, isto é o que não falta. O amarelo vira característica de uma personagem representativa de uma aura angelical em um pedaço do filme e no outro, a cor de um bastardo homicida. Mas o mais interessante são os olhos. Se existe algo realmente impressionante no roteiro, além dos memoráveis diálogos, é a atenção dada aos personagens. Cada um possui uma personalidade única e pelos olhos dos personagens, muitas vezes coloridos, se destacando do preto & branco, enxergamos verdadeiro sentimento e alma deste. Alias, outra definição de film noir é a ambigüidade moral dos personagens presentes no filme. Muitos em Sin City possuem essa tal ambigüidade, pessoas sem escolhas e obrigadas a viver uma constante luta contra a violência e muitas vezes a favor dela. Os personagens dos films noir clássicos também tinham motivações sexuais. Isto está explícito em Sin City, na maioria dos segmentos. Em outras palavras, eis aqui um filme que poderia muito bem ser considerado um genuíno filme noir do século XXI.

Com duas horas de duração, Sin City é divido, em especial, em três segmentos, denominado: “O Duro Adeus”, “A Matança Grande e Gorda” e “O Bastardo Amarelo”. Todas histórias dos quadrinhos de Miller. Antes e depois desses segmentos, porém, somos presenteados com duas curtas cenas protagonizadas por um assassino de aluguel, chamadas de “O Cliente Sempre Tem Razão”, em um prólogo e um epílogo. A cena inicial, poética ao extremo e de uma beleza sensacional, consegue se destacar de todo o resto do filme como algo maravilhoso, mesmo durando menos de cinco minutos. O sentimento que ela traz, de mistério, beleza perdida e confrontos pessoais e sexuais intriga e maravilha. A cena final traz o assassino de aluguel de volta, desta vez em uma ainda mais curta, mas eficiente ao resumir toda a proposta do filme e exemplificar ainda mais como funciona esta tal Cidade do Pecado, onde os fracos com certeza não possuem vez, definhando, e os fortes, prevalecendo.

Fotografado brilhantemente, Sin City é um espetáculo visual que deslumbra e enche os olhos de prazer. Chega a ser vibrante. Tirando uns três cenários, o resto foi tudo construído digitalmente, em um feito excepcional de efeitos visuais, e a fotografia encanta ainda mais nesse sentido, fazendo com que tudo não soe artificial demais. Montagem perfeita, trilha sonora ótima, entre outros feitos técnicos satisfatórios, Sin City é um dos muitos filmes do século XXI que mereciam ter sido vistos nos cinema. Quem não viu, perdeu uma experiência memorável e empolgante, cujos artifícios visuais ficam em segundo plano, quando o encanto prevalece pela intensidade com a qual foi dirigido. Além de revolucionário, obrigatório. Cinema essencial, um neo-noir para sobreviver ao tempo e influenciar muitas outras obras pela frente.



Cidade de Deus by blogcinemateque
março 5, 2008, 2:56 pm
Filed under: Wally Soares

Como poucos cineastas brasileiros, Fernando Meirelles é um grande contador de histórias. Só isso para explicar o que ele atingiu com Cidade de Deus, filme que, ao lado de Central Brasil, ajudou o cinema brasileiro a ultrapassar as fronteiras e atingir o público internacional. Um filme complexo e de narrativa fascinante, o feito de Meirelles como diretor é incontestável. Sua habilidade de narrar esse incrível conto impressiona pela autenticidade e a forma visceral com que é construída. Aspectos técnicos como fotografia e montagem ajudam muito nesse sentido, tornando a viagem muito mais intensa, ágil e bonita. Mas de bonito mesmo, só o visual, já que as histórias contadas em Cidade de Deus são incrivelmente tristes e duras. É a coragem e a habilidade infalível de Meirelles em abordar temas, tabus e personagens com tamanha autenticidade e relevância que faz com que Cidade de Deus se torna cinema obrigatório, e um filme importante não só para a história social do nosso país, mas para a evolução do cinema.

Traçando todos os aspectos possíveis e narrando de forma impecável o surgimento de uma favela do Rio de Janeiro, uma que, infelizmente, espelham tantas que assombram a cidade nos dias de hoje, o cineasta, ao lado do roteirista genial Bráulio Mantovani, adaptando a obra criticada de Paulo Lins, impressiona a audiência com a meticulosidade com que são apresentados os personagens, os acontecimentos, e fascina ao mostrar que, por trás do menor detalhe, existe uma grande história a ser contada. É esse cuidado exemplar de contar a história e definir tão bem seus personagens é que o filme consegue se conectar tanto com as pessoas. Fica fácil, portanto, identificar com os personagens, principalmente aqueles que acabamos seguindo por décadas. Vamos criando um vínculo, até com os personagens mais imorais, até o fim da sessão, momento onde já estamos suficientemente impressionados e carregados de informação para, então, julgar o destino de cada um.

Obviamente, com isso, o personagem mais intrigante se revela o protagonista da história, Buscapé, que conta com um desempenho revelador do jovem Alexandre Rodrigues. O grande herói da história – e esta é uma história que, infelizmente, necessita muito de um herói, Buscapé representa o jovem brasileiro que cresce no inferno e, de alguma forma, atinge a superação, resistindo aos pecados e tentando honestamente ganhar a vida. Mas as coisas não são tão simples. Como ele explica, na Cidade de Deus, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Entendemos, portanto, a angústia do garoto, e com isso, vemos o porquê de tantos jovens serem o que são hoje. Nem todos são como Buscapé, e crescendo em um lugar tão repreensível, consigo claramente entender por que. É aqui que esta o verdadeiro valor do filme de Meirelles. Ao traçar a ascensão da favela, realiza não só uma crítica e um lembrete social, mas caracteriza os vários personagens que tanto crescem neste lugar. Nós presenciamos tudo de primeira mão, pela narração vibrante de Buscapé, e somos maravilhados, assombrados e chocados pela perversão, a crueldade e a triste imoralidade de uma cidade aparentemente esquecida e desprovida de felicidade.

Ainda contando com um soberbo elenco, diálogos extremamente memoráveis e uma parte técnica que, como já mencionei, se torna fator essencial para contar a história, a obra-prima de Fernando Meirelles é um retrato de uma sociedade que, mesmo que se passando entre os anos 60 e 80, ainda se mantém terrivelmente atual. É um lembrete e uma obra interminavelmente fascinante. Os personagens soam tão reais, as seqüências tão intensas e os diálogos tão autênticos que, chega a um ponto no qual parece estar assistindo a um documentário. O realismo é grande e a habilidade poderosa de Meirelles na direção é maior ainda. Não é por nada que, imensamente elogiado pela crítica internacional, se encaminhou para quatros indicações ao Oscar, após não ter sido escolhido para representar o Brasil na edição anterior. Como compensação, recebeu indicações à melhor diretor, roteiro adaptado, montagem e fotografia. Todos merecidos e, se devo dizer, merecia ainda mais. É um marco do cinema brasileiro. Influente e devastadoramente eficiente, ainda não fui presenteado por uma obra nacional de tanto poder e maestria. Quando um garotinho de no máximo sete anos é questionado quanto a sua masculinidade, sua resposta é a seguinte: “Já fumei, já cheirei, já roubei e já matei, sou um sujeito de verdade.” É um diálogo incrivelmente infeliz e duro em sua reflexão sobre a falta de infância em nosso mundo violento e conturbado. Essa infância roubada fica ainda mais evidente com a cena final, quando um grupo de garotinhos mata o dono do morro e começam a planejar uma lista negra, querendo tomar os negócios do tráfico e matar quem for necessário. Onde é que está Deus?



Piaf – Um Hino ao Amor by blogcinemateque
fevereiro 22, 2008, 9:06 pm
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A biografia convencional, mas belíssima sobre Edith Piaf e suas conquistas musicais e perdas amorosas não foi escolhida como representante da França no Oscar para concorrer na categoria de melhor filme estrangeiro. No lugar, foi a animação Persépolis, que não conseguiu chegar à reta final.  Talvez Piaf tivesse sido mais do agrado da Academia, principalmente por se tratar de uma biografia cujas características sempre são valorizadas e possui uma direção um tanto acadêmica. Mesmo assim, o filme fez bem e conseguiu um número consideravelmente bom de três indicações. 

Marion Cottilard e seu desempenho assustadoramente realista e intenso foram indicados como melhor atriz, e depois de ver o filme, sem hesitar, a apontaria como aposta certa no próximo Oscar. Mas com o passar do tempo, a atuação de Julie Christie no filme “Longe Dela” (ainda inédito no Brasil) foi conquistando as premiações e as atenções. Infelizmente Cottilard não teve o favoritismo merecido, ficando com Christie. Mas Cottilard perdeu também o posto de ‘alternativa’, visto que Ellen Page está se tornando uma queridinha pelo seu desempenho maravilhosamente contundente em “Juno”. Marion ficou, com isso, como o ‘cavalo negro’. Espero que este cavalo negro tenha o sucesso merecido no dia 24. 

Nas categorias técnicas, podemos encontrar o filme indicado em melhor figurino e melhor maquiagem. Não tendo muitas chances no primeiro, é um trabalho luxuoso de figurino e época, mas não se iguala ao dos favoritos, “Desejo e Reparação” e “Sweeney Todd”. Resta a categoria de maquiagem, aspecto impecável do filme, que ajuda a deixar Cottilard ainda mais realista, aparentemente idêntica à verdadeira Edith Piaf. Não seria injusto se vencesse aqui, mas eu prefiro o trabalho detalhado, meticulosamente fenomenal feito no terceiro filme da série “Piratas do Caribe”.