Cinemateque


Frank Darabont e Stephen King by blogcinemateque
abril 19, 2008, 5:03 pm
Filed under: Vinícius Pereira

Não se sabe exatamente de onde surgiu a admiração do cineasta Frank Darabont pelas obras de Stephen King, mas o fato é que já foram quatro as adaptações comandadas por ele baseadas em algum material previamente publicado pelo mestre do horror. Tudo começou com o curta The Woman in the Room em 1983, quando o diretor tinha apenas 24 anos e era um completo desconhecido do grande público. O conto traz uma característica marcante em suas produções, com uma história bastante forte e que não deve ter agradado a muitos – é centrado em um homem que utiliza a prática da eutanásia em sua mãe com pílulas para dormir (sendo esta uma paciente terminal). Depois de um trabalho em longa-metragem para a televisão, Darabont voltou ao universo de Stephen King no que é seu melhor filme até hoje. Um Sonho de Liberdade tem uma trama difícil, mas que ainda assim impressiona por sua capacidade de emocionar os espectadores. Na trama, Tim Robbins é preso injustamente após ser acusado de matar a esposa, ganhando a amizade de Red (Morgan Freeman, brilhante), uma espécie de comerciante do local. A maneira como Darabont conduziu a trama impressiona pelo fato de ser seu trabalho de estréia em longas para o cinema, realizando um filme com uma qualidade que muitos veteranos devem invejar.

Assim, não foi complicado imaginar que seu próximo trabalho seria uma nova adaptação de uma história do Stephen King, novamente se passando em uma prisão. Dessa vez, acompanhamos a vida de um guarda (Tom Hanks) que se impressiona com determinados fenômenos envolvendo um prisioneiro (Michael Clarke Duncan) no corredor da morte. Considerado por muitos como o melhor filme em todos os tempos, À Espera de um Milagre transborda em sentimentalismo, sendo uma das mais belas tramas que o cinema já viu – ainda que prefira os trabalhos de maior densidade do diretor, é inegável as qualidades que a fita possui. Após um deslize com o bem intencionado Cine Majestic, o diretor demorou mais de cinco anos para retornar com o ainda inédito no Brasil O Nevoeiro. Baseado no livro The Mist (mais uma vez de King), foi a prova definitiva de que Darabont é um mestre nesse tipo de adaptação.

A trama envolve um grupo de moradores de uma pequena cidade que são surpreendidos por uma misteriosa névoa que traz consigo criaturas de origem inexplicável. Apesar do esforço de alguns para tentar superar a situação (liderados pelo personagem de Thomas Jane), muitos preferem levar tudo pelo lado místico e acabam aumentando o caos no momento em que mais precisaram se acalmar. Esqueça do sentimentalismo que transbordava em outros longas do diretor: O Nevoeiro é a fita de horror mais nervosa que o cinema viu em anos. Ao contrário do que possa se imaginar, Darabont é um excelente cineasta do gênero de terror e por vezes cria situações que se tornam quase insuportáveis para o espectador. É a natureza humana sendo levada ao extremo para garantir sua sobrevivência frente ao desconhecido. Incrível como esse trabalho não foi tão reconhecido quanto suas outras adaptações, visto que manteve o mesmo nível e ainda traz um dos desfechos mais chocantes que já vi. De certa forma caminhando contra os esquemas dos grandes diretores, Frank Darabont parece se manter fiel àquilo que acredita ser válido para sua filmografia. As adaptações do Stephen King (que trazem algumas semelhanças, mas no geral oferecem diferentes reações nos espectadores) sempre serão bem-vindas.

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Jorge Furtado e o novo cinema brasileiro by blogcinemateque
março 5, 2008, 2:50 pm
Filed under: Vinícius Pereira

Numa época em que a temática social está tão presente no cinema nacional, um gaúcho de 48 anos é responsável por trazer um ar diferente à nossa produção. Desde a década de 80, ficou evidente que Jorge Alberto Furtado seria um dos grandes nomes que fizeram o Brasil ser reconhecido por seu cinema no exterior. Como um dos criadores da Casa de Cinema de Porto Alegre, realizou O curta-metragem Ilha das Flores, considerado um dos melhores de todos os tempos, ganhando o Urso de Prata em Berlim através de um retrato crítico da sociedade de consumo, numa trama bastante inovadora (mostra a trajetória de um tomate, desde sua plantação até ser jogado no lixo). Logo a TV Globo soube aproveitar o talento do jovem cineasta e ele passou a ser um dos principais roteiristas da emissora durante os anos 90, o que culminou na divertida minissérie A Invenção do Brasil, já no ano de 2000. Contudo, após se dedicar a vários curtas e trabalhos de renome para a televisão, chegou a vez de se arriscar em algum longa-metragem, ainda que fosse um projeto tão pessoal como tudo aquilo que havia comandado até então.

Assim surgiu Houve uma Vez Dois Verões, seu primeiro longa que recebeu elogios de toda a imprensa com uma trama pop e que dialogava diretamente com o público jovem. Literalmente era algo muito novo para aquilo que o público estava acostumado em termos de cinema nacional, fato pelo qual não ganhou tanto destaque num ano em que também foi lançado o fenômeno Cidade de Deus. O filme, protagonizado por seu filho Pedro Furtado, consegue surpreender o espectador graças à montagem inteligente, além de contar com uma trilha bastante marcante que valoriza o rock nacional – muitas das canções foram gravadas especialmente para o filme, contribuindo para o desenvolvimento da trama. Não chegava a ser algo essencial dentro de sua filmografia, mas sem dúvida Houve uma Vez Dois Verões foi um belo début que novamente lhe rendeu vários prêmios importantes, mas dessa vez apenas no Brasil – e na maioria das vezes reconhecendo apenas seu trabalho como roteirista, mostrando que ainda precisava evoluir como diretor.

13 de Junho de 2003. Essa foi a data em que Jorge Furtado passou de coadjuvante a um dos protagonistas dentro do novo cinema brasileiro. Após a estréia de O Homem que Copiava, a pergunta que ficou foi como o cineasta alcançou um resultado tão perto da perfeição nesse que era apenas seu segundo filme. Novamente o público preferiu a temática social exacerbada de Carandiru em detrimento ao novo longa de Furtado, ainda que tenha conquistado mais uma vez a crítica. Entretanto, claramente estávamos diante de um filme com potencial para ficar entre os melhores da retomada de nosso cinema. A trama é cheia de reviravoltas e foi o primeiro dos trabalhos do diretor ao lado do Lázaro Ramos, outra grande revelação que vinha para ficar. Mais uma vez vencedor de vários prêmios (uma constante em sua carreira), o longa tem um roteiro melhor do que a maioria dos filmes americanos com proposta semelhante que já vi, inclusive com alguns interessantíssimos momentos de animação que por vezes lembram o posterior Anti-Herói Americano. Era um sopro de vitalidade em nosso cinema, mas isso era apenas o começo.

Voltando para os temas jovens, Furtado fez de Meu Tio Matou um Cara um dos seus maiores sucessos comerciais. Claramente foi um retorno para o tipo de filme que aparentemente mais gosta de fazer, tendo adolescentes como protagonistas numa comédia que nem de longe é violenta como o tema sugere. É um estilo de cinema pouco visto no Brasil, sendo notável a intenção do cineasta ao propor histórias cujo principal objetivo seja o entretenimento de seu público, ainda que não abandone sua parte de crítica social (como não poderia deixar de ser). Incrível como a sensação de que seu realizador tem capacidade de fazer algo melhor do que tudo aquilo é colocada em segundo plano, especialmente pela questão de não ser um filme pretensioso em momento algum. É um retrato divertido da classe média que não cai em exageros e ainda traz um interessante desfecho que combina com sua natureza descompromissada. Foi seu filme menos reconhecido, mas sem dúvida um dos mais divertidos.

Em 2007, já com Saneamento Básico, Jorge Furtado provou aquilo que todos já sabiam: simplesmente ele não faz filme ruim! Mais do que isso, Saneamento também pode ser considerado como uma evolução em sua carreira, apresentando um roteiro excepcional que diverte ao mesmo tempo em que conscientiza seu espectador sobre a importância da preservação natural. Não é fácil para um cineasta chegar ao seu quarto longa-metragem com uma disposição ainda maior do que aquela observada em sua estréia. É por essas e outras que nosso cinema deve ser valorizado. Há um tempo atrás, a preferência pelo cinema estrangeiro era mais do que compreensível, afinal nossa produção ficou parada por um longo período e sofria de uma terrível falta de criatividade (devido às próprias condições do momento). Contudo, ainda que a quantidade de filmes brasileiros acima da média não seja a ideal, já não é raro as produções que se equiparam em qualidade àquilo observado no exterior. Para nossa sorte, Jorge Furtado certamente está nesse grupo de diretores brasileiros que, mesmo com todas as adversidades já conhecidas, consegue fazer um cinema de primeiro mundo.

٠ Ranking Jorge Furtado
1. O Homem que Copiava (2003, diretor/roteirista)
2. Ilha das Flores (1989, diretor/roteirista) [curta]
3. Saneamento Básico (2007, diretor/roteirista)
4. Houve uma Vez Dois Verões (2002, diretor/roteirista)
5. Antônia (2006/2007, roteirista) [TV]
6. Meu Tio Matou um Cara (2004, diretor/roteirista)
7. A Invenção do Brasil (2000, diretor/roteirista) [TV]
8. Os Normais – O Filme (2004, roteirista)
9. Luna Caliente (1999, diretor/roteirista) [TV]
10. Tolerância (2000, roteirista)



Conduta de Risco by blogcinemateque
fevereiro 22, 2008, 9:01 pm
Filed under: Vinícius Pereira

Conduta de Risco é um filme à moda antiga, uma espécie de thriller que lembra um pouco algumas fitas políticas de três décadas atrás, baseado basicamente na força de seus diálogos e as atuações inspiradas de todo o elenco. Talvez por isso deveria ser considerado o principal filme na disputa do Oscar no tempo em que bastava “apenas” uma boa história e um enorme esforço de direção para a mesma ser realizada. Porém, o tempo passou e a Academia apresentou muitas mudanças nos últimos anos, levando Conduta de Risco a um aspecto desconfortável nessa edição de 80 anos do prêmio: mesmo com 7 indicações no total (ou seja, o terceiro filme mais prestigiado), o longa de Tony Gilroy pode seguir a tradição de fitas como O Informante e Seabiscuit e sair da cerimônia sem estatueta alguma. É fato que em muitas categorias ele só foi nomeado para completar a seleção, mas não seria justo algum reconhecimento a esse sucesso de crítica?
 
As indicações foram: melhor filme, direção, ator (George Clooney), ator coadjuvante (Tom Wilkinson), atriz coadjuvante (Tilda Swinton), roteiro original e trilha original. De imediato é certo que deve perder as duas categorias principais para Onde os Fracos Não Têm Vez – além de melhor ator coadjuvante, já que Javier Bardem é imbatível. Entre as trilhas musicais (única indicação técnica, um absurdo aliás), seria excelente ver o trabalho do James Newton Howard ser reconhecido, mas Desejo e Reparação é um concorrente de nível bastante elevado. E, claro, mesmo tendo sua melhor atuação na carreira, Clooney não deve ser páreo para Daniel Day-Lewis. Portanto, há apenas duas categorias em que há chances reais de Michael Clayton vencer: roteiro original e atriz coadjuvante. Para a primeira, ainda aposto em Juno, mas a parcela mais tradicional da Academia pode premiar o Gilroy aqui. Já entre as coadjuvantes, categoria mais indefinida até o momento, realmente meu palpite vai para a Tilda Swinton, que está em seu melhor momento e superior a outras candidatas. É um reconhecimento que o filme merece, não apenas a maravilhosa atriz.



Tempos de Guerra by Vinícius Pereira
fevereiro 16, 2008, 12:20 am
Filed under: Vinícius Pereira

Não é novidade que o cinema americano sempre ofereceu um olhar crítico sobre os diversos acontecimentos que envolvem o país, sendo o gênero de guerra um dos principais representantes desse estilo de cinema. Ainda que alguns exemplares de filmes com essa temática ofereçam uma visão claramente patriótica (e em muitos casos não poderia ser diferente, devido à própria situação do momento histórico), mas de certa forma conseguiam transmitir um sentimento universal e não apenas ligado à questão do país no conflito em si. Nos últimos meses, as salas foram invadidas por diversas produções que analisam os efeitos da Guerra do Iraque de maneira bastante distinta. Entretanto, ao contrário do que se esperava por se tratarem de produções ligadas ao pós-11/09, nenhuma conseguiu transmitir o verdadeiro sentido dos recentes ocorridos no Oriente Médio e foram justamente massacradas pela crítica.

Entre os longas que analisam a questão com um ponto de vista mais político, estavam Leões e Cordeiros e O Suspeito. O primeiro tem uma maior conexão com os conflitos no Afeganistão. Ainda que seja louvável a proposta de discutir essa questão apresentando os bastidores das questionáveis decisões do governo americano, é um filme que se perde em tantas pretensões e resulta tedioso e pouco eficaz sobre o espectador. O mesmo pode ser comentado a respeito de O Suspeito, que dá foco à paranóia que se instaurou na política internacional do país após os atentados terroristas de 2001. O surpreendente é que ambos conseguem gerar alguma reação em determinados momentos e até fazem pensar, mas isso é mérito das daquilo visto todos os dias nos noticiários, e não da competência de seus realizadores.

E como já era aguardado, surgiram ainda produções que criam uma maior identificação com o estado dos norte-americanos durante essa onda de terror. No Vale das Sombras foi o mais louvado de todos nesse sentido, porém talvez seja o pior exemplar dessa safra de filmes sobre a guerra. Quando o filho do veterano vivido por Tommy Lee Jones é dado como desaparecido, isso emana um sentimento vivido por milhares de cidadãos americanos. “É o preço a se pagar pela guerra”, parece dizer o filme, mas tudo é transmitido de maneira tão fria que o resultado decepciona. E, mesmo que seja o mais esquecível, O Reino merece ser citado como o total desvirtuamento das questões relacionadas ao conflito em um típico blockbuster de verão. Todos filmes ligados à guerra, todos frustrantes em suas colocações. Será Redacted a única salvação desse filão?