Cinemateque


O Cheiro do Ralo by blogcinemateque
março 5, 2008, 2:32 pm
Filed under: Victor Nassar

Baseado no livro homônimo de Lourenço Mutarelli. O filme conta a história de Lourenço (Selton Mello), um comprador de antiguidades. De seu cotidiano na loja, e sua vida conturbada com a mulher, surgem as situações cômicas e filosóficas do filme. Sobre sua mulher, o que se pode dizer…“Mulher é tudo igual, se você bobear os convites já estão na gráfica!”. E em sua loja de relíquias, entre objetos excêntricos e pessoas não menos que isso, encontra desde relógio de corda até olho e perna mecânica, de mulher viciada ao ex-combatente da segunda guerra. A pessoa interessada em vender chega, senta e mostra o seu valioso produto. Ele analisa, dá o preço e..se não gostar, Foda-se!

“Por favor, pode se sentar. Tá sentindo o cheiro ruim? É do ralo!”. E o ralo é não somente o responsável pelo cheiro ruim, ou pelas risadas durante o filme, é por ele que vem a análise da mente obsessiva do Lourenço (pode-se dizer que também do homem em si). Se, no início, ser um comprador de quinquilharias era um tanto complicado – já que pra isso deveria oferecer um preço bem abaixo do que o objeto valia para poder obter um lucro, e isso dava um pouco de pena, em virtude de todos que iam ali serem pessoas realmente necessitadas do dinheiro – com o “aparecimento” do bendito cheiro (ou maldito cheiro) surge também a tormenta que é agüentá-lo, e o conseqüente estresse, que acabaria por ser descontado nos clientes. Logo, é o cheiro o grande responsável por tornar Lourenço um coisificador.

E tudo por causa de uma bunda. “A” bunda, diga-se bem a verdade. “Poderia me casar com essa bunda!”. É um círculo vicioso em que ele está metido. Vai à lanchonete todos os dias comer um podre de um sanduíche, apenas para ver A bunda da garçonete de nome impronunciável, e como o sanduíche sempre cai mal tudo acaba indo para a privada, que irá resultar no cheiro insuportável do ralo. Bunda – Sanduíche – Privada – Ralo. A culpa é mesmo toda da bunda.

O cheiro vem da bunda, o cheiro vem do ralo, o cheiro vem da merda. “_Aqui cheira a merda. _É o ralo. _Não. Não é não. _Claro que é. O cheiro vem do ralo. _O cheiro vem de você. _Olha lá. Olha lá, o cheiro vem do ralinho. _Quem usa esse banheiro? _Eu. _Quem mais? _Só eu. _E então, de onde vem o cheiro?”. É a grande mensagem do filme. Se são as merdas do mundo que fedem, e quem faz tudo isso é o homem, já sabemos de onde vem o cheiro. É por coisificar as pessoas, e os sentimentos, que há merdas pra tudo quanto é lado nesse mundo. É disso que o filme fala, desse pó acumulado numa loja de antiguidades, desse fedor insuportável que vem do banheirinho dos fundos.

Entre a comédia sarcástica e mensagens de tom crítico, o roteiro te faz pensar. Mesmo que na bunda… Mesmo que no cheiro ruim que vem do ralo… E Selton Mello sem dúvida vem junto com o roteiro, é o próprio Lourenço atormentado e obsessivo. Trabalha bem demais! Por sinal, o filme todo se encaixa de tal maneira que não há nem como desvencilhar a trilha, nem a fotografia, tudo nele é feito sob medida. Uma grande obra do cinema brasileiro!

“De todas as coisas que tive, as que mais me valeram, das que mais sinto falta, são as coisas que não se pode tocar, são as coisas que não estão ao alcance de nossas mãos. São as coisas que não fazem parte do mundo da matéria.”

O Cheiro do Ralo. Eis um filme são. (Mesmo não sendo.)

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O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias by blogcinemateque
março 5, 2008, 2:27 pm
Filed under: Victor Nassar

1970, época de ditadura militar no Brasil e também da Copa do Mundo no México. É nesse contexto que se desenrola a história de Mauro, um garoto que vivia com seus pais em Belo Horizonte. Seus pais são militantes contra a Ditadura e precisam sumir por uns tempos, que dizem apenas ser umas férias, mas que voltariam antes que a copa começasse. Ele é deixado então com o avô, que logo vem a falecer, e precisa se adaptar ao estilo de vida um tanto excêntrico de um judeu vizinho dali, que o acolhe em sua casa.  

Entre a angústia pelo retorno de seus pais e a ansiedade pela Copa do Mundo, Mauro vai descobrindo um mundo novo ali no bairro, com muitos judeus e italianos, muita gente idosa, e poucas crianças.  

A história tem um ritmo bem simpático, é interessante perceber todo o amadurecimento do menino, aos poucos ele vai deixando a preocupação pela volta de seus pais e passa a apenas procurar se divertir por ali com as outras crianças. Passa a aceitar a companhia do velho judeu e descobre o quanto essa relação pode lhe beneficiar, seja na hora do café com peixe (que faz bem pra cabeça), ou nos almoços melhores com as senhoras vizinhas, sempre muito atenciosas. Tudo isso, a medida em que vai chegando a copa e todos ali passam a se envolver com o sentimento de união pelo seleção. 

É um filme bem agradável de se ver, por conta não só do roteiro em si, mas pela fotografia, que é bem limpa, e lhe deixa bem a vontade assistindo, como se lhe integrasse à história. E também por conta da trilha, que é simples e bem adequada, caracterizando e dando identidade aos vários momentos do filme, seguindo com a linha do próprio rumo do enredo. 

O que mais me agrada é a linguagem do filme. É meio que uma mistura de cinema “tranqüilo” europeu com elementos brasileiros, mas que não tem nem uma cara de “importado” (não descaracterizando assim o nosso cinema), nem de nacionalista exagerado, que sempre gera aquela reclamação de que são roteiros feitos somente para brasileiros, no qual a história se baseia mais no pano de fundo do que no roteiro em si. Mesmo sendo um filme totalmente habituado em um cenário brasileiro (ditadura e copa do mundo), não toma isso como elemento principal, porque a linguagem em si é universal, seja visto aqui ou na Rússia o filme consegue se posicionar como um filme de grande valor. A simplicidade que há faz com que a história lhe conquiste e seja capaz de atingir qualquer pessoa, em qualquer lugar.  

Só o que falta é que filmes como esse possam ser mais valorizados, e assim produzidos em escala maior do que certas bombas cinematográficas que tem por aí. Ou melhor, por aqui…