Cinemateque


A Marca da Maldade by blogcinemateque
março 19, 2008, 3:26 pm
Filed under: Ronald Perrone

Orson Welles foi um dos grandes realizadores do cinema sonoro americano e muitos o consideram o melhor. Cidadão Kane é um marco histórico para a sétima arte, isso é fato, e nem o próprio Welles se superou, em termos de invenção cinematográfica, após realizá-lo. Mesmo assim, a cada filme que dirigiu, continha um toque inventivo constante.

O flashback talvez seja o maior elemento que Welles utilizou de maneira original. No caso de A Marca da Maldade, o tempo é trabalhado de outra forma. O diretor cria situações que acontecem paralelamente expostos em tempo real. A câmera salta de um lugar para outro numa espécie de fragmentação da linearidade para expor uma simultaneidade de situações.

Para deixar mais claro, vamos à história, cujo cenário é a fronteira entre os Estados Unidos e o México. O detetive mexicano Vargas, que acabou de se casar com uma americana, roda pelas ruas da cidade investigando a família Grandi, suspeita de um assassinato que ocorre logo no início do filme. Além disso, preocupa-se com os movimentos do inspetor americano Quinlan, que, por sua vez, tenta anular Vargas, que anda interferindo em seu modo corrupto de agir. Enquanto isso, a mulher de Vargas se mantém isolada num motel à mercê da família Grandi.

É uma alegoria de ações que acontecem em tempo real que Welles aplica sua montagem inventiva. É também uma trama complexa que possui apenas um propósito: servir de base para a aplicação de um estilo cinematográfico. A Marca da Maldade é um noir. Talvez seja o ultimo noir legítimo realizado. Por tanto, a essência estética supera os desdobramentos do roteiro. Se tratando de seu diretor então, algumas seqüências antológicas reafirmam a genialidade de Welles, como o longo movimento de câmera em travelling do inicio; o assassinato de Grandi; a perseguição final quando Vargas, com um gravador oculto, segue os passos de Quinlan.

Quinlan, aliás, é um das mais interessantes estudos do homem em contato com o poder. O próprio Welles interpretando-o, com seu corpo já obeso e o rosto truculento, incorpora uma de suas maiores criações. Observemos em uma de suas visitas a Marlene Dietrich, como em apenas alguns gestos e palavras consegue transmitir tanto sentimento.

Existe toda uma mitificação em torno da montagem que o estúdio impôs ao filme contra a vontade de Welles, mas nada que impeça que A Marca da Maldade, pelas imagens que Welles concebeu, seja uma obra prima.

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O Falcão Maltês by blogcinemateque
março 19, 2008, 2:44 pm
Filed under: Ronald Perrone

Muitos historiadores e especialistas do cinema o consideram como o primeiro filme noir legítimo, consolidando as bases que caracterizariam o gênero dos cenários escuros, do preto e branco expressionista, tramas complexas, heróis ambíguos e as famosas femme fatale’s. Foi também o primeiro trabalho de John Huston na direção e tem Humphrey Bogart em um desempenho brilhante. Só por esses itens citados já seria possível medir qualitativamente a importância de O Falcão Maltês para o cinema.

Não vale a pena debruçar-se na história e nos desdobramentos e reviravoltas misteriosas do roteiro. Basta entender que, tratando-se de um noir, é um emaranhado de situações que servem apenas de fachada para algo maior. Um McGuffin, como dizia Hitchcock. É, na verdade, um exercício de estilo estético. O que importa o falcão de ouro fundido se a maneira de Bogart empunhar seu revolver é muito mais interessante que o próprio entrecho?

Mas os verdadeiros inventores do noir foram os romancistas do gênero policial. Dashiell Hammet, autor de O Falcão Maltês, era um desses conhecidos como “escritores dos quartos dos fundos”. Foi Hammet o criador do detetive Sam Spade. Mas Spade não seria o mesmo se Bogart não lhe desse vida. Bogard nunca foi um galã, mas tinha presença como ninguém. Seu Sam Spade é frio e desconfiado do mundo ao seu redor. Basta observar sua atitude no desfecho de O Falcão Maltês para perceber a contribuição que seu personagem depositou na formação do paradigma do herói noir.

O Falcão Maltês já havia sido filmado duas vezes antes deste aqui. Mas foi a visão de John Huston que deixou marca. Huston, até então, roteirista da Warner, estreou na direção entusiasmado, com novas idéias de movimentos de câmera e até palpites na montagem. Mas teve que brigar muito para manter alguns detalhes do romance em sua versão, como a dureza de Spade e o final amargo. A grande sacada de Huston foi deixar a trama policial em segundo plano e enfatizar a expressão e o comportamento. A maneira como Bogart entra em cena, com o cigarro no canto da boca soltando as falas de um diálogo afiado. É a concepção de um estilo, a definição do noir.



A Um Passo da Eternidade by blogcinemateque
fevereiro 15, 2008, 9:39 pm
Filed under: Ronald Perrone

Período de Oscar, em meios às especulações dos próximos premiados pela Academia, é sempre interessante relembrar alguns vencedores do passado. Clássicos que fizeram época e que, infelizmente, alguns deles, já são esquecidos entre as rodas da nova geração cinéfila por mais que sejam datados. Um exemplo é A Um Passo da Eternidade.

Pouco se tem ouvido dessa produção de 1953, dirigido pelo austríaco Fred Zinnemann, que abocanhou quatro prêmios da Academia incluindo melhor filme. Ainda assim, quem nunca viu as imagens de Burt Lancaster e Deborah Kerr rolando na praia e fazendo acontecer o mais famoso beijo da história do cinema? É certo que o filme foi perdendo sua intensidade com o passar dos anos, e nem chega a ser uma obra prima, mas possui suas ontologias para não entrar no ostracismo.

A Um Passo da Eternidade é baseado no livro homônimo publicado por James Jones em 1951. Com mais de três milhões de cópias vendias, foi um sucesso também de crítica chamando a atenção dos estúdios de Hollywood, apesar de conter alguns detalhes de difícil adaptação como o número de 950 páginas e a linguagem um tanto grosseira para época. Além disso, o próprio exército americano era contra a adaptação do livro cuja imagem que transmitia à instituição militar americana era totalmente negativa.
Curiosidades à parte, A Um Passo da Eternidade possui como plano de fundo o período da segunda grande guerra nos dias que antecedem o famoso ataque à Pearl Harbor pelos japoneses. Mas o grande interesse do entrecho, na verdade, era explorar o magistral quebra-cabeça de personagens atormentados que se entrelaçam e lidam com situações extremas de adultério, abuso de poder, alcoolismo, prostituição e conflitos pessoais. Para isso conta com um elenco memorável.

Burt Lancaster vive um sargento que se apaixona pela mulher (Kerr) de seu superior e esta lhe corresponde. Frank Sinatra é um soldado alcoólatra numa ótima atuação que lhe rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante. Montgomery Clift encarna um boxeador que se recusa a lutar no time de boxe do exército. O filme se desenvolve a partir do trabalho de construção de cada personagem e de como eles se entrelaçam e criam novos argumentos, novas situações mais interessantes que levariam uns três parágrafos a mais para dissertar.

Zinnemann, embora tenha levado o prêmio de melhor diretor naquele ano, conduz ligado no piloto automático. A narrativa se sustenta somente pelo belíssimo desempenho dos atores e das situações do roteiro como a já citada cena do beijo. A paixão transmitida por Lancaster e Kerr durante a seqüência foi algo nunca visto antes.

Hoje, o filme se mantém por essas e outras poucas imagens que ficam na lembrança. Talvez, dirigido por um Nicholas Ray cuja liberdade criativa foi uma das mais admiradas no cinema naquele período, A Um Passo da Eternidade, provavelmente, seria uma obra prima, apesar de ainda ser um filme obrigatório pra qualquer cinéfilo que almeja conhecer o fantástico cinema clássico americano.