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Sweeney Todd – O barbeiro demoníaco da rua Fleet by blogcinemateque
fevereiro 22, 2008, 8:58 pm
Filed under: Rômulo Silva

Tim Burton é notoriamente um cineasta que, ao mesmo tempo em que cria blockbusters (Batman e sua seqüência, Planeta dos macacos, A fantástica fábrica de chocolate), deixa sua marca autoral, principalmente no que tange ao visual de seus filmes. O que poderia sair do encontro de Burton com Dante Ferreti, notório diretor de arte de Martin Scorcese (A época da inocência, Cassino, Gangues de Nova York e O aviador), cujos trabalhos primam pelo realismo? Simples: Sweeney Todd.

A direção de arte de Sweeney Todd é rica. Sendo um filme de época, seria natural esperar cenários suntuosos, exuberantes, como vários dos indicados para o Oscar de Melhor Direção de Arte. No entanto, o que vemos no filme é uma Londres decadente – apesar da próspera Revolução Industrial – suja. E, seguindo contra a maré dos típicos filmes de época, a direção de arte do filme segue uma clara linha de refletir a temática da sociedade decrépita, retratada seja no Juiz Turpin (Alan Rickman), seja em Sweeney Todd (Johnny Depp) – facetas de uma mesma organização social antropofágica, um autêntico ‘cão come cão’. Mesmo com a clara mão de ferro de Burton para o ‘expressionismo’ típico de suas obras, Ferretti – com a colaboração de Francesca Lo Schiavo – cria também uma espécie de realismo, já que Londres era sim uma enorme favela, com alguns pontos de luxo.

Os figurinos, com a mesma indicação da direção de arte, contribuem também para a criação da atmosfera da cidade. Há uma ausência total de cores, excetuando os figurinos de Pirelli (Sacha Baron Cohen), cuja personalidade é excêntrica por excelência, logo seu figurino o acompanha e do Juiz Turpin, numa clara mostra de sua posição social elevada.

Porém, de nada adiantaria o diretor de arte e a figurinista (Colleen Atwood, que fez os figurinos de Memórias de uma gueixa, Chicago, A lenda do cavaleiro sem cabeça e Ed Wood, entre outros) trabalharem em sintonia e não haver resposta do diretor de fotografia. No entanto Darius Wolski (trilogia Piratas do Caribe e Cidade das sombras) encarnou muito bem o que Burton desejava e trabalhou praticamente no preto e branco, dando destaque apenas para o sangue, bizarro em sua vermelhidão (afinal, como diz uma das canções do filme, “we all deserve to die”). Uma indicação ao Oscar de Melhor Fotografia não seria nada mal.

Além de Melhor Direção de arte e Melhor Figurino, Sweeney Todd concorre ainda ao prêmio de Melhor ator, com Johnny Depp. O trabalho de Depp nesse filme é melhor que o esperado. Depp não é um ator necessariamente afinado, mas compensa isso cantando praticamente todas as músicas com uma amargura impressionante, retratando a angústia de seu personagem. Mesmo que saiba que não tem culpa do que lhe aconteceu – e sonhe com dias melhores (veja Johnnana (trio), na qual canta com Jamie Campbell Bower) – Todd escolhe concretizar sua vingança. A atuação de Depp possui uma intensidade que a torna maior ainda que seu Jack Sparrow ou seu J. M. Barry. Além de Depp, outros que deveriam ser indicados são Helena Bonham-Carter, que torna Mrs. Lovett uma personagem extremamente complexa e dividida entre seus desejos de vida normal e seu amor por Sweeney Todd e Ed Sanders, cujo personagem cresce de tal forma na trama e o jovem ator corresponde a esse crescimento.

Na categoria de Melhor Direção de arte, Sweeney Todd concorre, principalmente com Sangue negro. Apesar de todos os méritos do filme de Paul Thomas Anderson, uma vitória de Dante Ferreti aqui não seria mal nenhum. Em Melhor Figurino todos os concorrentes têm méritos, mas continuo a achar que Atwood merece o prêmio. Já para Depp, é uma pena que concorra no mesmo ano que Daniel Day-Lewis e sua encarnação de Daniel Plainview. Não fosse isso, finalmente Depp levaria para casa o homenzinho dourado que merece desde 1990…