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Tropa de Elite by blogcinemateque
março 5, 2008, 3:10 pm
Filed under: Pedro Henrique

“Chegará o dia em que o Brasil fará o mundo curvar-se diante do cinematógrafo…, afinal, assim como os ursos (como eram chamados os irmãos Lumiére), nós temos força e bravura….”
João Machado – brasileiro presente na primeira sessão de cinema no Brasil.

O que é preciso para fazer cinema? Bons atores, bons diretores, bons roteiristas? Creio que isso não é suficiente. É sim, importante, a base de tudo, a premissa para o sucesso. Não obstante, não é – e isso nós estamos cansados de ver em produções absolutamente clichês – a garantia de reconhecimento de público e crítica, ou até mesmo de uma possível arrecadação de bilheteria. Isso, deve-se ao fato de sempre procurarmos idéias no trabalho que não é feito no nosso país. Originalidade é um termo que não pode ser enquadrado com freqüência no quadro atual do nosso cinema. Nas novelas que vemos na televisão, essas sim possuem independência, altos orçamentos, que são investidos sem pudor em locações de cena fora do país, figurinos e grande trabalho de fotografia. Por que não ter essa mesma boa vontade com cinema. Eis a questão?

Por que nossos filmes de maior sucesso, nacional e internacional, são apoiados em violência, pobreza, drogas, etc? Tudo bem, é a nossa realidade, mas não é estranho, um país como o Brasil, recheado de paraísos surreais, somente fazer sucesso com “desastres”. O cinema foi feito também, para sonhar, dar asas à imaginação, literalmente. É o caso do ótimo “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias”. Se voltarmos um pouco mais, teremos também, o gigante “Central do Brasil”, magnífico. Depois disso, tudo que fez sucesso baseia-se em nossa triste realidade. De maneira alguma estou desmerecendo os ótimos trabalhos feitos em “Carandiru”, “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” e o mais recente “Meu Nome Não é Johnny”, inclusive considero a obra de Fernando Meirelles, um dos melhores retratos de violência que já vi no cinema. Mas será que é só isso que cinema brasileiro é capaz de produzir?

Não costumo dar muita importância a premiações, não fico sonhando com uma vitória no Oscar. O Oscar é uma festa particular norte-americana, que vez em quando gosta de agradar alguns convidados. Gosto do Oscar, mas não o vejo como objetivo a ser alcançado, e acho que nossos filmes também pensam assim. O nosso cinema é nosso em primeiro lugar, depois do resto do mundo. O reconhecimento mundial, logicamente, é importante, dá margem à uma possível nova produção de sucesso. “Tropa de Elite” não é um filme sobre violência, é um filme que conta à história de um homem cansado de seu trabalho, e que quer viver a vida com sua família. Talvez, por isso tenha sido reconhecido Brasil à fora. Algo que o nosso amigo João Machado parecia sentir. Já que “Tropa de Elite”, levou o cinema nacional pela segunda vez a Berlim, ganhando o prêmio máximo, O Urso de Ouro. E é a esse prêmio que nós devemos valorizar. Nós, brasileiros, fizemos cinema como os ursos.