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Na Natureza Selvagem by blogcinemateque
fevereiro 22, 2008, 9:20 pm
Filed under: Otávio Almeida

Entender as razões que levaram Christopher McCandless (Emile Hirsch) a abandonar a vida confortável ao lado de sua família, além de um futuro promissor em Harvard, não é tão importante quanto aproveitar a viagem proposta por Sean Penn em Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007), seu novo trabalho como diretor.

Certos filmes acertam o coração dos cinéfilos em cheio e confesso que ainda não consigo expressar em palavras sobre o impacto causado por Na Natureza Selvagem em mim. Talvez porque Chris McCandless seja um personagem misterioso, cuja mente funciona como um quebra-cabeça difícil de decifrar. Seria como descobrir o que há em seu coração ou em sua alma. Mal (ou bem) comparando, parte do fascínio em torno do épico Lawrence da Arábia vem da enigmática figura do herói (ou anti-herói) T.E. Lawrence (Peter O’ Toole). Há um conflito absurdo dentro de sua própria mente, que podemos dizer que ocorre ali um épico intimista bem maior do que a aventura presenciada na imensidão do deserto. É tudo tão fantástico que chega a ser fascinante lembrar que Lawrence existiu de verdade. Assim como Chris McCandless.

Talvez Na Natureza Selvagem seja tão bom porque Sean Penn era o homem certo para adaptar o livro homônimo de Jon Krakauer para o cinema. O eterno outsider alcançou a maturidade necessária para contar essa história sem parecer anarquista ou radical. Pelo contrário, ele apresenta uma sensibilidade surpreendente e rara na Hollywood atual, sendo capaz de emocionar sem cair na pieguice.

Ao assistir a Na Natureza Selvagem, você nunca sabe quando é para rir ou chorar, afinal todo mundo tem um pouquinho de Alexander Supertramp, nome adotado por McCandless em sua jornada rumo ao Alasca. Talvez essa terra gelada represente o seu coração. O herói quer chegar ao fundo de sua alma e encontrar a si próprio para, enfim, entender o que significa a felicidade. Para ele, a verdadeira felicidade deve ser compartilhada, mas, primeiro, o ser humano precisa se encontrar. Até lá, McCandless recusa clichês ou prazeres fáceis e só quer saber de sua jornada. Ele não exagera na bebida, não usa drogas e ignora a sedução de uma linda menina.

A atuação visceral de Emile Hirsch contribui para aproximar o espectador dessa viagem. Não dá para assistir ao filme passivamente. Você pula pra dentro dele, graças a Emile Hirsch e ao espírito do livro totalmente transportado para uma sala escura – o que é mérito de Sean Penn, um diretor que fez um épico de jaqueta e calça jeans para o nosso tempo. Aliás, ele sabe que não precisa recorrer a belas paisagens para seduzir o espectador. Sua câmera está lá para contar a história. E para olhar nos olhos do protagonista e deixar as respostas para a platéia.

Por onde passa, McCandless ensina e aprende com a natureza e cada um dos personagens. Destaco as participações de Catherine Keener, uma hippie que vê Chris como imagem e semelhança de seu filho desaparecido, e o veterano Hal Holbrook, que rende as cenas mais comoventes do filme. Todos os elementos são partes de um todo, que não estaria completo sem as canções extraordinárias de Eddie Vedder, especialmente Long Nights, que toca na abertura, e Society, além da fotografia de Eric Gautier – deslumbrante, mas que jamais desvia a atenção.