Cinemateque


Pecados Íntimos by blogcinemateque
abril 19, 2008, 5:50 pm
Filed under: Matheus Pannebecker

Os maiores dramas não são aqueles épicos grandiosos ou tramas com grandes desgraças; são aqueles onde os problemas da vida cotidiana são retratados com um teor dramático intenso, levando os personagens a extremos para resolver cada problema emocional que está pendente em suas vidas. O escritor Tom Perrotta sabe captar muito bem toda essa contundente áurea que atinge tantas pessoas entre quatro paredes. Visando trabalhar essa interessante temática, ele resolveu escrever Little Children (Criancinhas, tradução perfeita e literal da obra) que narra a história de diversos núcleos, onde cada personagem é cercado de angústias e necessidades emocionais. Uma entediada Sarah situa-se numa pracinha onde cuida de sua filha que está brincando com outras crianças. Conseqüentemente, ela é obrigada a conviver com as outras mães; que na visão de Sarah não passam de pessoas superficiais e bobas. Parte do tédio dela se deve à total ausência do marido Richard, que passa o dia trabalhando e está envolto em fantasias sexuais com uma mulher da internet. Nesse mesmo ambiente de Sarah somos introduzidos a uma figura muito semelhante, só que do sexo masculino. Todd é o pai que cuida de seu filho enquanto a mulher Kathy produz documentários para sustentar a família. Desempregado e prestes a tentar novamente o teste para se tornar advogado, ele acaba por conhecer Sarah. Um acontecimento que acarretará em um romance proibido e com conseqüências psicológicas para ambos. Ainda nessa vizinhança chega Ronnie, um pedófilo que acaba de sair da prisão e que é atormentado por seus vizinhos pelo crime que cometeu.

Com esses personagens que à primeira vista podem parecer bem comuns, Perrotta cria uma obra totalmente subjetiva, apoiando-se completamente nos conflitos internos de cada história para criar a dramaticide da trama. No entanto, é no principal paralelo do livro que reside a força de Criancinhas. Quem é criança? Quem é adulto? A narrativa consegue perfeitamente espelhar a áurea infantil de cada personagem nos adultos e mostrar que, bem no fundo, alguns deles não passam de simples crianças – com inúmeras carências afetivas, frustrações não resolvidas, negações não aceitas e até mesmo algumas birras desnecessárias. Tudo muito bem linear e conduzido pelas entrelinhas, exigindo do leitor uma leitura mais compenetrada e atenta para compreender cada detalhe dramático.

Foi o próprio autor Tom Perrotta, junto com o diretor Todd Field, que fez a transposição do livro para as telas. Posso, com a maior certeza, afirmar que o trabalho de Todd Field e Tom Perrotta é um dos mais brilhantes da década nesse quesito, pois a adaptação que os dois realizaram é milimetricamente fiel ao texto do livro. Sem falar, é claro, que conseguiram dar alma própria ao filme – nunca se apegando demais ao estilo literário e sempre deixando a linguagem cinematográfica presente. Poucas coisas foram alteradas na história e praticamente tudo funciona perfeitamente em ambas as obras. A escolha do elenco é outro fator que fez com que Pecados Íntimos (título brasileiro horrível para o filme, diga-se de passagem). Kate Winslet (indicada ao Oscar) e Patrick Wilson fizeram um trabalho impecável ao darem para os personagens aquela sensação de pessoas comuns – ou seja, é muito fácil se identificar com as atitudes e sentimentos dele. Mas quem se destaca mais é Jackie Earle Haley como o perturbado Ronnie, em desempenho impressionante. Enfim, a adaptação da obra resultou um filme brilhante, que completa à obra de Tom Perrotta. Se você gostou do livro, gostará do filme. E vice-e-versa.



Notas Sobre Um Escândalo by blogcinemateque
abril 19, 2008, 5:10 pm
Filed under: Matheus Pannebecker

A chegada da bela e jovem Sheba Hart em uma escola suburbana americana agita as águas do lugar. Não apenas os alunos cheios de testosterona se interessam por aquela criatura angelical – os professores também enxergam algum tipo de mistério nela, algum encantamento. Porém, é uma senhora que vai ser a pessoa mais intrigada em relação à Sheba. A veterana professora de história Barbara Covett enxerga na recém-chegada uma possibilidade de amizade que vai lhe tirar da sufocante rotina solitária. Pouco a pouco ela vai conquistando a confiança de Sheba, até que as duas se tornam amigas. No entanto, existem dois segredos que vão abalar essa relação. Barbara descobre-se apaixonada pela mais nova colega, enquanto Sheba está tendo relações sexuais com um de seus alunos de quinze anos.

É fácil rotular Anotações Sobre Um Escândalo (sim, o livro é ”Anotações” e o filme ”Notas”) como um livro sobre assédio sexual. O romance de Zöe Heller aborda isso mas seria injusto e incoerente resumi-lo a uma obra sobre escândalo eróti¬co – ainda que esse seja o seu atrativo comercial. É um livro sobre moralidade mas esta não apenas ligada aos pa¬drões que constituem uma conduta sexualmente aprovada ou não pela sociedade. É uma outra mora¬lidade – aquela que certamente tocará qualquer ser humano que tenha na vida encontrado à sua frente um vizinho fofoqueiro, um amigo mal intencionado, um parente frustrado, entre outros tipos amargurados e dispostos a não irem para o inferno. São espécies que estão prontas a apontar as falhas alheias como defesa às suas próprias pessoais. Tudo isso está implicitamente exposto no texto de Heller, que não faz a mínima questão de parecer intelectual e que apenas faz questão de contar a história. Portanto, as análises ficam por conta do leitor, que terá que descobrir sozinho o que toda aquela trama significa. Anotações Sobre Um Escândalo é uma obra linear e regular, que não faz de seus clichês um fardo e que utiliza todas as previsíveis situações apenas para trabalhar as facetas dos personagens. O vocabulário é simples e compacto, resultando em uma leitura muito simples. Fica claro que não é um livro forte no sentido literário e que realmente é apenas um relato jornalístico (a história da professora com o aluno é real) misturado com ficção.

O encarregado de adaptar a morna obra para as telonas foi o ácido Patrick Marber, mais famoso por seu realista roteiro de Closer – Perto Demais. Existem várias carácterísticas do roteiro anterior de Marber em Notas Sobre Um Escândalo – muito criticismo em torno dos relacionamentos, análises inteligentes e diálogos interessantes. A adaptação do livro me surpreendeu, no sentido em que o filme acabou diferindo completamente do livro. Personagens, situações e desfechos foram alterados; e, para a minha felicidade, tudo para melhor. É óbvio que como filme, ainda fica aquela sensação de previsibilidade e situações óbvias, mas quando comparado ao livro, a produção maximiza a sua qualidade, pois a evolução que a história sofreu na adaptação é mais do que notável. Por esse motivo, entre outros, recebeu uma merecida indicação ao Oscar, e arrisco dizer que merecia ganhar muito mais que o vencedor daquele ano: Os Infiltrados. No final das contas, Notas Sobre Um Escândalo mostra seu verdadeiro potencial quando o espectador tem a possibilidade de fazer a comparação entre livro-filme. Deve ser por causa disso que eu sou um dos poucos cinéfilos que realmente adora esse excelente filme.



O Homem Que Não Estava Lá by blogcinemateque
março 20, 2008, 2:46 pm
Filed under: Matheus Pannebecker

Os termos mais técnicos definem os filmes “noir” da seguinte maneira – uma história normalmente filmada em preto-e-branco (com sombras e altos contrastes), onde o personagem principal vive num mundo cínico e antipático, onde acaba sendo envolvido em uma trama policial. Sem falar, é claro, de corrupções, ciúmes e fraqueza moral entre os personagens. O termo “noir” foi utilizado pela primeira vez em 1946 pelo crítico francês Nino Frank e com o passar dos tempos, esse gênero de filme conquistou platéias, tornando-se grande sensação no mundo do cinema. São inúmeras as obras que são lembradas até hoje por esse marcante estilo; podemos tomar como exemplo Pacto de Sangue, de Billy Wilder. No entanto, as produções noir não estão presentes apenas no cinema do passado. Ainda hoje podemos encontrar algumas produções que bebem completamente da fonte desse gênero e outras que são resquícios também. Os diretores Joel e Ethan Coen conseguiram trazer de volta essa temática para os espectadores em O Homem Que Não Estava Lá, obra incompreendida que pouco foi comentada aqui pelo Brasil.

Logo quando o nome dos irmãos Coen é mencionado, o que vem a mente é Fargo – Uma Comédia de Erros e agora, mais recentemente, Onde Os Fracos Não Têm Vez (que deu para eles a maior consagração de suas carreiras). Quase ninguém fala dessa pequena obra-prima deles entitulada O Homem Que Não Estava Lá, produção que resgata todo o espírito noir do cinema de antigamente. Ed Crane (Billy Bob Thornton, longe de qualquer caricatura habitual e em uma de suas melhores interpretações) é um barbeiro insignificante que mora em uma pequena cidade do norte da Califórnia. Ele é casado com Doris (Frances McDormand) e leva uma vida extremamente aborrecida. Cansado de seu destino, ele vê na infidelidade de sua esposa uma oportunidade única de mudar seu futuro. Mas seu plano engenhoso revela segredos obscuros que podem mudar tudo. O filme ainda conta com participações de James Gandolfini, Scarlett Johansson e Richard Jenkins.

O Homem Que Não Estava Lá é um conto de paixão, crime e castigo, revivendo os grandes momentos daquele cinema de antigamente. As técnicas expressionistas da fotografia, a inevitabilidade do fracasso do protagonista, a narração em off e os ângulos incomuns da câmera garantem a esse filme dos irmãos Coen um clima noir único, mantendo a atenção do espectador durante cada minuto de sua projeção. Não é apenas a fotografia em preto-e-branco que nos remete ao estilo, mas também o roteiro muito bem arquitetado e conduzido de forma excepcional. Os atores do elenco também contribuem em grande potencial para o desenrolar da trama, traduzindo toda a ambigüidade necessária no gênero. Se Joel e Ethan Coen não tinham me conquistado definitivamente (por mais que eu adore Onde Os Fracos Não Têm Vez, não vejo genialidade), com O Homem Que Não Estava Lá eles conseguiram esse feito. Não apenas por terem feito um filme brilhante em quase todos os aspectos, mas por conseguirem resgatar uma época para o cinema contemporâneo sem se perderem ou fugirem da essência dessa época mágica que foi a “noir”.



Central do Brasil by blogcinemateque
março 5, 2008, 2:35 pm
Filed under: Matheus Pannebecker

O cinema brasileiro também é provido de sucessos estrondosos. Não exatamente em bilheteria, mas sucessos que acabam ficando na história por conquistar um público muito especial, fugir dos típicos padrões brasileiros de fazer cinema e ficar na memória de muitos cinéfilos. São inúmeros os filmes que conseguem esse feito – alguns nem são merecedores (Tropa de Elite) e outros têm todos os méritos possíveis (Cidade de Deus). Mas antes de qualquer 2 Filhos de Francisco da vida emocionar platéias, a história de uma senhora que acaba encontrando conforto e uma fuga da solidão ao lado de um jovem órfão conquistou pessoas, prêmios e, antes de mais nada, o orgulho de cada cinéfilo brasileiro.

Quando Fernanda Montenegro visitou a tal central do Brasil do título antes das filmagens, várias pessoas a procuraram pensando que ela realmente fosse uma pessoa que escrevia cartas. A atriz adorou essa idéia e a incorporou no roteiro do filme. Fernanda entrou de cabeça no projeto, e mal ela sabia que toda essa sua dedicação e comprometimento lhe renderiam um prestígio mundial. O fato é que ela foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Drama e chegou ao ápice quando foi nomeada para o Oscar de Melhor Atriz. Não é nenhum exagero meu dizer que Fernanda merecia a estatueta dourada e que a vitória de Gwyneth Paltrow nessa categoria foi uma das maiores injustiças da história da Academia. Incrivelmente intensa, a atriz é a alma de Central do Brasil, exalando competência e emocionando com sua inesquecível performance – a melhor que o cinema brasileiro já viu.

Quando Dora (Fernanda Montenegro) resolve ajudar um menino (Vinícius de Oliveira), após ele perder sua mãe, ela acaba se envolvendo com o garoto. Pouco a pouco, uma amizade vai surgindo entre os dois quando ambos embarcam na estrada para achar os familiares do garoto. Para Dora, o menino é uma certa luz no fim do túnel, uma possibilidade de ajudar alguém a se achar no mundo. Para o garoto, ela é a mãe que ele perdeu, e que o ajudará a encontrar sua família. A princípio, a proposta é clichê e até limitada para ser trabalhada por mãos brasileiras, mas o diretor Walter Salles conseguiu extrair o melhor dessa história. A jornada que Dora e o garoto vão fazer nas estradas do Brasil é a maior experiência que ambos viverão, despertando uma humanidade e uma leva de sentimentos que estavam escondidos sob a superfície durante muito tempo. A reclusa senhora adquire emoção e sentimentalismo, vendo no órfão o filho que ela nunca teve.

Central do Brasil é aquele tipo de filme obrigatório para um cinéfilo brasileiro. Mesmo que a Rede Globo tenha estragado a imagem do filme de tanto que o reprisou, o filme de Walter Salles é cheio de brilhantismos. Talvez seja a produção brasileira que melhor represente o nosso cinema, comprovando que também somos capazes de fazer excelente dramaturgia e que somos superiores do que A Vida é Bela.