Cinemateque


PI by blogcinemateque
maio 30, 2008, 6:49 pm
Filed under: Marcus Vinícius

9:13 horas, nota pessoal: quando eu era criança, minha mãe me disse para que não olhasse diretamente para o sol. Certa vez, quando eu tinha seis anos eu acabei fazendo.

12:45 horas: Eu reitero meus postulados.Um: a Matemática é o idioma da natureza. Dois: Tudo ao nosso redor pode ser representado e ser entendido através dos números.

A história de Max Cohen (Sean Gullette), um gênio matemático que procura por um padrão de números na bolsa de valores é foco de “Pi”, estréia de Darren Aronofsky como diretor. Natural dos Estados Unidos, o filme lhe rendeu o prêmio de melhor diretor no festival de Sundance e também notoriedade, já que mais tarde viria a dirigir o espetacular Réquiem Para um Sonho.

Esse ato de encarar o sol causou seqüelas na saúde de Max, causando-lhe dores de cabeça e alucinações, amenizadas e controladas por medicamentos. Mas isso não o impede que siga com sua obsessão com números: ele estuda para achar um padrão no mercado de bolsa de valores usando o Pi, valor que começa no 3,14 e vai até o infinito. Mas não é apenas na bolsa que ele vê padrões matemáticos. Para Max, o mundo em si é feito desses padrões, desde uma espuma de café até a forma de uma colméia de abelhas.

Quanto mais a sua pesquisa se aprofunda, os ataques e as alucinações começam a ser mais fortes e recorrentes. Após um ‘tilt’, seu computador imprime uma seqüência de números e pifa logo a seguir, mas ele joga fora esse papel pensando ser apenas produto de uma falha, quando na realidade era o que procurava. Seu professor Robeson (Mark Margolies) avisa ao pupilo que a busca por essa resposta pode lhe prejudicar de alguma maneira, mas ele não acredita. Então ele começa a ser perseguido por uma empresa da bolsa, visando comprar seu trabalho, e por um grupo de judeus que acreditam que ele tenha achado nada menos que uma “senha”: um código de 216 palavras no Torá que seria o real nome de Deus.

Com um orçamento de 60 mil dólares, Darren mistura alucinações, números, surrealismo e religião para transformar “Pi” no grande filme que é. Sua fotografia em preto e branco dá uma espécie de lógica para o olhar matemático de Max pro mundo, o que dá até uma certa veracidade para a trama. Já na primeira obra o diretor usa, mesmo que meio tímido, o recurso chamado hip-hop montage (que seria utilizado exaustivamente em Réquiem para Um Sonho) que é uma seqüência de imagens muito rápida descrevendo um ato. Outro recurso usado é a snorricam, que é a câmera presa ao corpo do ator. Vale exaltar a enigmática e surreal seqüência no metrô, um dos ápices do filme, tanto para a trama quanto tecnicamente, e a trilha eletrônica de Clint Mansell, que dá o clima tenso ao filme.

Com um orçamento praticamente nulo, se comparado às grandes produções da época e de hoje em dia, mas com uma história mixando surrealismo e religião com um estilo arrojado de direção, Darren Aronofsky estréia no mundo do cinema com o pé direito, cheio de estilo e fazendo barulho. Mesmo que ele tenha apenas três filmes no currículo (três excelentes filmes, diga-se de passagem) Pi é considerado por muitos o melhor e é quase que obrigatório para todo cinéfilo que se preze.

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