Cinemateque


Três em Um by blogcinemateque
maio 30, 2008, 6:33 pm
Filed under: João Paulo

Simplicidade. Esse é o início de qualquer diretor novato. Orçamentos limitadíssimos, amigos em alguns papéis, gêneros sem muitas exigências cinematográficas. Assim foi e sempre será o ponta-pé para um iniciante. Muitas vezes será este trabalho tão bem aceito para o público em geral. Irei fazer um pequeno resumo na estréia de Três diretores.

10 mil dólares. Esse foi o valor do primeiro filme de Robert Rodriguez, El Mariachi. A história é bem simples e fácil de ser contada. Um mariachi andarilho que tenta sucesso nas pequenas cidades do México tem sua vida virada ao avesso depois de tombar com um perigoso assassino que tem numa maleta de violão, um pesado armamento e pega a maleta errada. E assim começa uma perseguição implacável de um cartel contra o simples mariachi.

O filme para muitos é o clássico da simplicidade, e mesmo com pouco dinheiro a criatividade do diretor falou mais alto. Com ótimas cenas de ação e ainda contando com um dos seus companheiros e amigos como protagonista e produtor, Carlos Gallardo. Com uma ótima repercussão da crítica, o diretor ganhou credibilidade, transformou o personagem em uma lenda onde cada filme que se passa, o exagero aumenta e que se tornou um tipo de diretor pão duro onde mesmo com pouco recurso, sendo boa praça e ter imaginação, se chega mais longe do que se imagina.

Quando um músico quer entrar na onda do cinema, muitas vezes pode ser uma boa ou uma verdadeira furada. Rob Zombie pode se encaixar no meio termo. O músico já tinha absorvido técnicas de direção quando ele sentava no batente para fazer os seus clipes. E muitas vezes, os clipes se tornavam homenagens aos clássicos dos anos 50,60 e 70. Até o nome da antiga banda do artista é uma homenagem a um filme de Bela Lugosi chamado White Zombie.

Mas vamos falar brevemente sobre o seu primeiro filme: A Casa dos Mil Corpos. Pegue todos os clichês de filme de horror comuns como quatro jovens viajando de carro, dar carona a estranhos, pneu furar e por ai vai. Pode se dizer que o filme é uma “homenagem” a fonte de inspiração ao diretor. A vantagem do filme é o não compromisso com o que pode dizer coerente e dá espaço a loucura, violência gráfica e a edição frenética e viajada. Porém como nem tudo são flores, alguns fãs do gênero consideram o filme um ultraje e que o cineasta melhorou em sua seqüência, Rejeitados Pelo Diabo. Mas neste olhar de cinéfilo, foi ao contrario, Rejeitados não é um grande filme de horror, depois Zombie errou a mão no trailer falso de Grindhouse, Werewolf Women In The SS que ainda contou no elenco Nicolas Cage, entretanto fiquei com a esperança de que ele possa ser um bom nome do horror com o remake de Halloween, apesar de precipitado. Mais sorte e mais pé no chão Zombie.

E por último, Chan Wook Park com o drama de guerra Joint Security Area, ou se preferir, Zona de Risco. O filme é o começo de uma carreira muito elogiada onde a cada filme é esperado com entusiasmo. A história se passa na fronteira desmilitarizada coreana que divide os dois paises. Dois soldados norte coreanos são assassinados e dois soldados, um sul e um norte(Byung-hun Lee e Kang-ho Song), ambos feridos. Para resolver esse terrível impasse, a Comissão de Segurança das Nações Neutras é designada para resolver esse caso. A encarregada desse terrível fardo é a Major Sophie Jean(Lee Yeong Ae), filha de coreano, mas que nasceu na Suíça. Os sobreviventes têm diferentes versões sobre aquela noite e ambos cheio de falhas. Agora só a Major Jean para tentar não saber quem é o culpado, mas saber a verdade daquela terrível noite.

O filme também é uma introdução, mesmo que pequena, sobre a história da separação dos dois paises e a tão falada Zona de Risco que é uma área neutra que fica entre os dois paises. Infelizmente o diretor não pode filmar no lugar original, mas o trabalho de recriação é sublime. E com o sucesso do filme (que não foi pouco) ele teve confiança que precisava e fez Senhor Vingança, depois, todo mundo sabe.

Uma mistura sábia de suspense e drama com belos toques de sensibilidade e brutalidade. Um filme que abriu portas para os atores principais e principalmente para o diretor que mostrou por que veio já nesse filme e nas suas obras conseqüentes. Uma obra-prima que passou despercebido para o publico brasileiro que ainda não coloca na cabeça que Oldboy não é o único filme do diretor. Infelizmente o filme poderá ganhar o seu remake americano e espero que isso nunca aconteça.



O Apanhador de Sonhos by blogcinemateque
abril 19, 2008, 5:20 pm
Filed under: João Paulo

Adaptações de livros sempre são complicadas. A necessidade de ser mais fiel ao livro sempre é cobrado dos fãs do livro ou do autor. E quando se fala em Stephen King é de causar frisson em qualquer fã de filme de horror/suspense dependendo do livro, claro. Mas em alguns casos as adaptações foram muito fracas, dá vergonha de dizer que é uma obra de Stephen King. Mas um filme, em particular, não é bom, mas também não é ruim…

O Apanhador de Sonhos conta a história de quatro amigos que, quando menores, salvam uma criança especial. Em retribuição os quatros amigos ganham poderes, sendo o principal elo um apanhador de sonhos. Os anos se passam e eles tentam comemorar os 25 anos de amizade, mas uma visita de um homem aparentemente doente vai desencadear uma serie de terríveis fatos e os amigos irão perceber que os poderes não vieram à toa.

Para começar, um apanhador de sonhos não é nada mais do que um artefato indígena que tem uma simbologia interessante, o apanhador serve como proteção contra os pesadelos fazendo que os pensamentos negativos não cheguem às pessoas que têm esse artefato em mãos. A maioria que viu o filme nem sabia desse pequeno detalhe que poderia ajudar a melhorar o filme.

O roteiro do filme foi um fator de desequilíbrio. Em algumas partes, o roteiro de Lawrence Kasdan (sim, o mesmo de Indiana Jones) consegue captar pontos importantes da trama como a relação de amizade dos quatro amigos, o leve toque de humor que tem no livro, o depósito de memória, a cena clímax do filme e entre outros, mas ao mesmo tempo escorrega por não colocar fatos importantes que no livro têm e fora isso mudar completamente o final do filme fazendo com que quem leu o livro termine um pouco frustrado. O elenco do filme é bom e eles fizeram a sua parte, nada a se reclamar, mas também não é para cobrar uma atuação digna de prêmio. A direção de Lawrence Kasdan não é ruim, mas com os desvios grosseiros de roteiro e um final apático é impossível não decepcionar o espectador.

O Apanhador de Sonhos não é um filme ruim, mas não é aquele filme para se dizer bom, apenas se encaixa no meio termo, mas que infelizmente uma coisa é verdadeira, que foi uma conturbada adaptação que retirou coisas bem assustadoras para colocar algo que nos faz lembrar um filme de ação B. O mais engraçado é que, mesmo com tantos problemas, é um filme que prende o espectador mesmo sabendo que é fraco. Mas a obra em si é realmente muito boa pena que a adaptação pro cinema foi extremamente fraca…



A Morte Passou Por Perto by blogcinemateque
março 19, 2008, 4:14 pm
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Uma coisa é certa, triângulo amoroso é sempre retorno no cinema e esse tema também foi utilizado pelo mestre do cinema (no meu ver) Stanley Kubrick. Também foi um dos primeiros filmes dele e é uma pena que não tem a genialidade que se vê em seus outros filmes.

A Morte Passou Por Perto conta a história de Davey, um lutador de boxe decadente que mora em um apartamento irrisório, mas que todas as noites ele olha para a janela e vê a sua vizinha Gloria, uma bela jovem que tem como trabalho dançarina de cabaré. Depois de uma vergonhosa derrota Davey volta para casa e vê a sua vizinha aos gritos com o chefe dela, Ruffalo, mas protegendo a sua vizinha e pedindo a para ir embora para longe com ele, só que ele não sabe que não será tão fácil assim e terá que enfrentar a fúria de um homem muito violento.

Já nesse típico filme noir de 1955 se percebe os traços e características de Kubrick. O filme é muito ágil, deixa o espectador ansioso para o próximo ato; a sua fotografia, mesmo para um filme noir, tem closes marcantes e um jogo de iluminação marcante que deixam ainda mais mágicos provando que o preto e branco carregam charme e beleza. As coreografias das lutas chegam ser banais, mas com uma condução que só Kubrick fazia, deixava a cena realista e de impacto. Os personagens do filme são tão caricatos que criam uma dedução para o espectador saber com o que está lidando no filme, mas isso não chega a prejudicar o filme. O roteiro é comum e simples, mas foi construído de maneira que ganhamos uma bela narrativa com jogos de cena sem igual dando destaque a seqüência aonde a personagem Gloria conta a história de sua vida, mas quando se viu em cena é uma bela demonstração de balé.

Mesmo com um tempo relativamente curto, A Morte Passou Por Perto é um belo filme noir com reviravoltas, personagens inesquecíveis e a maestria de Kubrick que começava a fazer uma trajetória sem igual marcada pela ousadia e obras únicas. Uma verdadeira aula de cinema e arte.



O Céu de Suely by blogcinemateque
março 5, 2008, 2:53 pm
Filed under: João Paulo

Uma coisa comum no nordeste é a rifa. A rifa é um modo meio que ilegal de se fazer sorteio de um objeto qualquer e sempre com preço lá em baixo, variando de 50 centavos a mais caro… Dois reais. E é essa rifa que vai guiar a desiludida Hermila, uma bela jovem, que volta para cidade natal, uma pequena cidade de Ceará, que volta com seu filho pequeno nos braços esperando o seu amado voltar. Mas a frustração cai por terra ao saber que seu suposto amado não irá voltar (…).

Visto com um atraso tremendo de minha parte, não conseguia localizar o filme. O Céu de Suely dirigido pelo cearense Karim Aïnouz e protagonizado pela pernambucana Hermila Guedes. O filme se passa no grande sertão nordestino, sendo que, não é como a maioria pensa que a localidade só presta para mostrar a pobreza da região. Puro engano.

(…) Tentando viver com a dor de saber que o seu suposto amado não irá mais voltar, Hermila tenta ficar na cidade a qual é uma passagem para dor, mas também de novos caminhos. E para sair dessa realidade, ela tem uma brilhante idéia. Hermila irá rifar “uma noite no paraíso” e ganha a alcunha de Suely, ao mesmo tempo em que consegue sucesso com a rifa, ela irá enfrentar os preconceitos de colocar o seu corpo a prêmio.

O roteiro é algo de se elogiar. Faz o que quase nenhum filme nacional faz: fugir dos padrões dos blockbusters nacionais, colocando uma história simples, mas ao mesmo tempo rica em desenvolvimento de personagens e situações. A trilha sonora é um atrativo a mais, com músicas que ficam na sua cabeça e canções da região e do jeito como é demonstrado surpreende um mero cético, porque, algumas canções que foram executadas como Blá Blá Blá e Coração, as duas cantadas pelo grupo Aviões do Forró e Eu Não Vou Mais Chorar cantada pelo grupo Ave de Rapina, foram tocadas com tanta exaustão que chegou ao ponto de desligar o radio. Porém, quando é executada no filme, ao mesmo tempo cria um tipo de saudosismo, e para completar, faz uma relação entre a canção e a personagem principal.

Os atores do filme fizeram uma atuação simples, proveniente do teatro, que ajuda na naturalização do personagem. Fora isso, o diretor opinou em usar o nome original dos atores para o filme, assim criando um tipo de desafio para os atores, dando profundidade as suas caracterizações. Com certeza, e de longe, a interpretação da pernambucana Hermila Guedes, entrega uma atuação de cair o queixo, fazendo uma das atuações mais naturais e sensíveis do cinema brasileiro.

Um verdadeiro achado do cinema nacional, um filme que foge dos padrões estabelecidos pela nova corrente nacional que ao mesmo tempo achou a fórmula do sucesso achou também o maior erro de tentar colocar linguagem televisiva no cinema e colocar roteiros sofríveis. Um filme que mostra que um lugar pode ter um sentido dúbio, onde pode se ver esperança em algo que já não demonstra isso. Atuações inesquecíveis. Uma pena que esse filme não foi para o Oscar como melhor filme estrangeiro em 2007, por que se fosse ganhava tranqüilo. Um dos melhores filmes nacionais que já vi.



Persépolis by blogcinemateque
fevereiro 22, 2008, 9:15 pm
Filed under: João Paulo

 O que chega a ser uma animação perfeita? Na cabeça de alguns jovens de hoje é a implantação da tecnologia se aproximando mais da realidade usando processadores e pixels para confundir o que é realidade ou fantasia. Mas ainda existe uma parcela na qual acha que uma animação tem que ser aquela com traços simples onde a fantasia consiga alcançar patamares da cabeça do criador e fazer algo único. Bem existe uma nova animação que conseguiu fazer isso. Persepolis de Marjane Satrapi. 

Teerã, final da década de 70, Marjane Satrapi é uma menina como todas as outras, brincalhona, adorável, sonhadora e um gosto insaciável pela liberdade, mas com o começo da revolução político-religioso-social , a vida de todos começa a mudar, inclusive a dela. O medo da repressão faz com que ela viaje para Europa para crescer em um mundo livre e lá ela sentirá na pele o que a vida lhe reserva. 

O roteiro do filme é um deleite, tem uma narração gostosa, que consegue atingir o drama e a comédia sem clichês ou em introduzir em momentos abruptos. Outro ponto belíssimo do filme é a trilha sonora, onde envolve rock, lirismo e uma antológica seqüência da Marjane cantando Eye Of The Tiger(!!) que consegue arrancar gargalhadas sinceras. Na dublagem, está no elenco Chiara Mastroianni (Marjane adolescente e adulta), Catherine Denueve (Mãe de Marjane) e o mais gostoso de ouvir é a voz de Gabrielle Lopes Benites fazendo a Marjane quando ela era criança, dá para ouvir o som da pureza e da inocência. E o desenho, basicamente é uma transposição de quadro a quadro da HQ, assim lembrando até Sin City pela fidelidade entre a obra original e filme.  

As chances do filme para o Oscar 2008 em ganhar na categoria de Melhor Filme de Animação são animadores, porém cautelosos. O filme ganhou prêmios importantes como o premio de Júri do Festival de Cannes, melhor filme estrangeiro no Festival Internacional de São Paulo, Festival Internacional de Rotterdan e outros prêmios, porém o seu encalço para o premio é a animação de qualidade suspeita Ratatouille da Pixar aonde vem com força total. Outro fator que incomodou uma parcela de quem acompanha a premiação é a veia da animação por não ser infantil e ser questionável para ser colocado para ser indicado em uma categoria onde se destacam filmes para crianças. Fora isso faltou mais indicações para o filme como Roteiro Adaptado ou Trilha Sonora.  

Persepolis não é só apenas uma animação qualquer, é uma ode a vida, á esperança e á fantasia. Uma animação que consegue tocar no mais gélido dos homens, que quebra o preconceito das pessoas que não gostam de filmes mais conceituais e principalmente que não precisa gastar horrores com tecnologia para fazer uma animação, mas sim ter coração e essência cinematográfica. Espero que ganhe o Oscar de Animação 



Elizabeth: A Era de Ouro by blogcinemateque
fevereiro 15, 2008, 8:53 pm
Filed under: João Paulo
EstrelaEstrela

A história nos ensinou uma coisa bem simples. Quem detém a tecnologia comanda as rédeas do controle mundial. No começo da idade moderna a Espanha detinha o controle da Europa por causa do controle e conhecimento marítimo. E com o Rei Felipe II, o absolutismo espanhol chegou a pontos extremos por causa da sua postura intolerante no campo da religião, criando rivalidades e guerras pelos países baixos. Porém, um reino se opôs a essa tirania, e quem estava no poder era Elizabeth I. (…).

Cate Blanchett volta ao papel que deu o ponta-pé em sua carreira fabulosa, da poderosa rainha Elizabeth I na continuação do primeiro filme que ganha o título de A Era de Ouro. Voltam figuras do primeiro filme como o ator Geoffery Rush e o diretor, Shekhar Kapur. Também constam no elenco, Clive Owen, Abbie Cornish e Samantha Morton.

Acredito que vi um filme altamente técnico. Serio, a parte técnica do filme é simplesmente deslumbrante, para quem gosta de uma impecável fotografia, iluminação e bom uso da computação gráfica, pode ter certeza, é um deleite visual. Porém do que adianta a beleza se muitas vezes não consegue-se ver paixão e dedicação nos envolvidos. Uns se esforçam, como Abbie Cornish, que me surpreendeu e merece ser investida, além de ser bela, claro, e Jordi Mollà que fez o Rei Felipe II. Mas o resto são problemas intermináveis, exemplos não faltam como a má utilização de Geoffery Rush e Samantha Morton (participação medíocre para uma ótima atriz), a canastrice de Clive Owen onde esteve robótico do inicio ao fim e a direção enfadonha de Shekhar Kapur que, apesar de alguns takes ótimos, não conseguiu ter o ritmo desejado mesmo para um filme curto para o estilo épico.

Cate Blanchett em seu retorno a encarnar Elizabeth fez os fãs da atriz vibrarem, porém, se tornou um tipo de fogo de palha porque o filme não foi bem recebido pelos críticos e em festivais e ainda mesmo assim, a atuação de Blanchett foi indicada ao Oscar, no meu ver, ela é o motivo para ver o filme, apesar de não merecer em hipótese nenhuma a indicação e se ganhar, com certeza será a zebra da vez. Se bem que muitos estão criticando a indicação de Ruby Dee no Oscar, isso pode até ser relevante.
Frustrante, essa é a sensação em ver Elizabeth: A Era de Ouro. Nunca pensei que poderia sair com tanta decepção de um filme. Mesmo com cenas belíssimas e curiosas, o filme é um exercício de tédio, paciência e sonolência. E pensar que o projeto pode virar uma trilogia. Se basearem-se no segundo conjunto da obra… então é melhor nem contar o resto da história para não cair em tristeza. Leia os livros de história, conseguem ser mais empolgantes do que esse filme. Lastima.