Cinemateque


Eu, Cristiane F. by blogcinemateque
abril 19, 2008, 4:58 pm
Filed under: Alex Gonçalves

Provavelmente todo o adolescente ou mesmo aqueles que já passaram por esta etapa da vida tiveram acesso a triste história de Christiane Vera Felscherinow, através da indicação de amigos ou nos tempos de leitura do colegial. Aos 45 anos, Christiane F. (como é conhecida mundialmente) nunca se considerou um exemplo para os jovens, mas o impacto que estes receberam ao ler todos os seus relatos na obra dos jornalistas Kai Hermann e Horst Hieck é evidente até hoje. Mas o leitor sempre encontrou nas suas memórias a conscientização de que o caminho percorrido por Christiane F. era o incorreto e que serviria como uma lição de superação com um momento difícil. As consequências deste vício perigoso foi a falta de objetivos, felicidades e sonhos e repleta de decepções e solidão. Consequências que assombram até hoje Christiane, ainda viciada de drogas.

Com a dedicação de Kai e Horst, estruturada em longas entrevistas com Christiane no período onde estava sendo julgada pelo consumo de drogas, Eu, Christiane F., Treze Anos, Drogada e Prostituída tornou-se um sucesso de vendas e rendeu uma adaptação para os cinemas em 1981. Uma pena que, agora chegada as comparações destas destes formatos distintos, o filme dirigido por Uli Edel (que foi muito mais feliz na grandiosa adaptação televisiva de “As Brumas de Avalon”) não surta o mesmo efeito do livro.

Christiane teve uma vida angustiante desde a sua infância com a repentina separação de seus pais. Antes de completar a idade presente no título, ela já fumava maconha e consumia medicamentos como o Valium. Em seguida tornou-se membro da “Gangue da Estação Zôo” e frequentava a discoteca Sound, popular naquele período, onde viu pela primeira vez o seu ídolo David Bowie. Foi ao integrar-se neste grupo de drogados que Christiane começou a usar “picos”, namorar com o garoto de programa Detlef e, quando não lhe restava dinheiro para se drogar, a se prostituir.

No livro temos uma descrição bem detalhada desta fase conturbada de sua vida, que ainda nos informa sobre a morte prematura de sua melhor amiga, Babsi, a tentativa falha da sua primeira desintoxicação e como conseguiu superar todos os problemas, ainda que sem viver distante das drogas. No filme o que é fornecido é uma versão igualmente sórdida da trajetória de Christiane, interpretada por Natja Brunckhosrt, contando com uma fotografia e cenários poluídos para representar a situação de sua personagem – entretanto, encarados de forma superficial, vendo que o filme de Edel ignora passagens indispensáveis da sua protagonista, como a convivência familiar e outros detalhes que concluem a sua vida antes de sua participação na “Gangue da Estação Zôo”. Faltou um roteiro que soubesse captar melhor essa história real. Mas da forma como foi entregue ao público, existe pouco que possa ser refletido deste relato – algo que Kai Hermann e Horst Hieck obteve com êxito maior.



Fêmeas Fatais by blogcinemateque
março 19, 2008, 4:06 pm
Filed under: Alex Gonçalves

Muitas das características que formam um filme noir, como a constante narração em off de seu protagonista, ângulos de câmeras inusitados, corrupção, traição, etc, ganham destaque as mulheres fatais. Ardilosas, sedutoras, fatais. Estes são os adjetivos principais de uma autêntica mulher fatal, mas conhecida no universo noir no francês femme fatale. Geralmente servem como obstáculos difíceis de serem ultrapassados devido a vulnerabilidade dos homens em questão da sua forte presença. São mulheres enigmáticas que tem como missão enfraquecer o herói para não atingir um objetivo, em solucionar um grande mistério, usando como arma a imensa beleza. Reviravoltas também fazem com que uma femme fatale tenha ligação direta na resolução, na maioria das vezes, de um crime.

Uma femme fatale costuma atuar numa trama como vilã, ainda que muitas conseguem encontrar a redenção depois de tantos erros cometidos. Mas não é somente na arte cinematográfica que nos deparamos com elas. Alguns historiadores denunciam figuras femininas mitológicas como mulheres fatais, como Calipso (poderosa ninfa do mar que prometeu vida eterna a Odisseu caso ele aceitasse a proposta de viver com ela para todo o sempre) e Morgana (sacerdotisa da Ilha da Avalon, segundo os contos do Rei Arthur).

Foi no início da década de 1940 que surgiu o film noir e as suas famosas femmes fatales, sendo pioneiro o clássico “O Falção Maltês” (terceira versão para o cinema do romance de Dashiell Hammett, lançado anteriormente no Brasil como “Relíquia Macabra”), onde a atriz Mary Astor encarna a femme fatale Brigid O’Shaughnessy. Lauren Bacall (“À Beira do Abismo”), Rita Hayworth (“Gilda”, “A Dama de Shanghai”) e Barbara Stanwyck (“Pacto de Sangue”) ajudaram a construir o painel de um dos grandes nomes que tiveram a oportunidade de imortalizar uma mulher fatal.

Mas estas mulheres extraordinárias não pararam por aí. Com as influências do cinema noir brotando no decorrer da década de 1960, as femmes fatales continuaram sendo elementos indispensáveis ao neo-noir, revelando-se mais ousadas a cada novo filme. Popular até hoje, as femme fatales se tornaram presentes tanto nos filmes que agregam tais influências do noir quanto de thillers convencionais. Marcou história a Kathleen Turner de “Corpos Ardentes”, cuja inocência transposta não era verdadeira como imaginávamos. Mas as personagens mais marcantes ficaram mesmo por conta do talento de Sharon Stone (“Instinto Selvagem”), Rebecca Romijn-Stamos (“Femme Fatale”) e Kim Basinger (“Los Angeles – Cidade Proibida”, em desempenho que lhe valeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante).

Sendo lendas mitológicas, figuras importantes da história, personagens de romances policiais e do cinema ou até mesmo mulheres que de fato existiram, as incríveis femmes fatales continuam exercendo o que melhor sabem fazer: hipnotizar os homens com a sua forte personalidade e com a incrível beleza, mesmo agindo como vamps, apelido carinhosamente concebido pelos americanos.



Dália Negra by blogcinemateque
março 19, 2008, 3:31 pm
Filed under: Alex Gonçalves

Los Angeles, 1958. Geneva Hilliker Ellroy, de trinta e sete anos, é encontrada morta num beco próximo a um colégio. O autor deste crime hediondo, que a matou sufocada, continua um mistério. Essa vítima era mãe do jovem James – traumatizado por anos com essa perda. Entre pequenos furtos e entregue ao vício das drogas e das bebidas com a tragédia, o mesmo tornou-se célebre na década de 1980 quando escreveu os seus primeiros romances, sendo o mais popular “Dália Negra”, publicado em 1987. Aborda o assassinato de Elizabeth Short, aspirante a atriz que tentou (e não conseguiu) a sorte na então Hollywoodland. A inspiração para escrever essa história, no entanto, veio diretamente do assassinato da sua própria mãe. Crimes não solucionados dados em circunstâncias distintas – mas Ellroy acredita que exista uma ligação entre estes dois pontos enigmáticos.

Quase vinte anos depois, e com a aprovação de público e crítica em questão da adaptação de “Los Angeles – Cidade Proibida”, James Ellroy comemorou pela quinta vez uma das suas histórias policialescas ganhando vida, agora pelas mãos de Brian De Palma. O roteiro de Josh Friedman foi fiel ao romance, elaborando uma trama que mistura personagens e ações fictícias. Essas duas versões, em livro e em filme, também encontram um culpado.

Características do cinema noir já são perceptíveis ao vermos Bucky Bleichert (Josh Hartnett) caminhar “do corredor do poder à sujeita das sarjetas, onde toda vida tocada é consumida”. A fotografia de Vilmos Zsigmond, indicada ao Oscar 2007, nos auxiliam a embarcar instantaneamente nos cenários com estética sórdida e ao mesmo tempo elegante de um autêntico film noir (termo francês que se traduz “filme preto”). Outros elementos deste universo podem ser facilmente desvendados, como a própria história que nos mostra os esforços de dois detetives em encontrar o culpado pela morte da Dália Negra (apelido encontrado nas vestes obscuras que combinavam com os cabelos negros de Elizabeth Short – interpretada no filme por uma formidável Mia Kirshner). Depois de dias dada como desaparecida, Beth Short foi encontrada com o sangue drenado, o corpo dividido em dois e a face desenhada com um corte profundo que levava de uma orelha a outra.

Após essa descoberta, o mestre do suspense Brian De Palma foca as suas câmeras no triângulo amoroso que se forma entre Bucky, Lee Blanchard (Aaron Eckhart) e Kay Lake (Scarlett Johansson), esta, por sinal, esconde cicatrizes vindas de um passado misterioso. Aliás, mistério é algo que se acumula com o surgimento da Madeleine Linscott (Hilary Swank), uma autêntica femme fatale, e sua excêntrica família composta por Martha (Rachel Miner), Emmett (John Kavanaugh) e a tragicamente engraçada Ramona Linscott (Fiona Shaw).

Com uma premissa complexa que deixa dúvidas no ar se não apreciada com a devida atenção, “Dália Negra” foi um fiasco de bilheterias e não adquiriu de todos os aguardados elogios, mesmo tendo a sua edição final aprovada com entusiasmo pelo próprio James Ellroy e referências sempre recorrentes na filmografia do diretor De Palma, sendo aqui homenageados “O Homem Que Ri” (produzido em 1928) e “Anjo Diabólico” (produzido em 1946). Mas será um título bem agradável para todos os aficionados pelo fascinante cinema noir.



Nina by blogcinemateque
março 5, 2008, 2:47 pm
Filed under: Alex Gonçalves

Ainda que pouco celebrado entre o público, o drama psicológico Nina é o que possibilitou os sopros de inovações mais expressivos nos últimos tempos no cinema nacional. Trata-se de uma produção livremente inspirada em Crime e Castigo, romance de Fiódor Dostoiévski publicado em 1866, com as suas distinções entre ambientes, geração e personagens. Enquanto no livro acompanhamos o sofrimento de Rodion Românovitch Raskólnikov após assassinar a própria agiota, no primeiro filme em longa metragem do diretor Heitor Dhalia o personagem é Nina, jovem que vive na São Paulo contemporânea.

Distante da própria família, Nina vive de aluguel no apartamento de Eulália, uma senhora que a humilha ao ponto de lhe negar alimentos, trancados na geladeira e nos armários da cozinha, devido os atrasos de pagamento. Sem nenhum emprego ou alguém com que possa lhe apoiar nestes vastos momentos de adversidades, Nina mergulha no seu mundo interior de forma tão intensa e drástica ao ponto de não ser capaz de identificar o que é real e o que é composto por frutos da sua própria mente, chegando a matar, sufocada com um saco plástico, a velha Eulália.

A história, desenvolvida por Marçal Aquino e pelo próprio Heitor Dhalia, também caminha com a presença de personagens enigmáticos incorporados por grandes nomes do nosso cinema, como o homem cego vivido por Wagner Moura e os pintores que circulam pelos corredores do apartamento onde Nina está hospedada, estes interpretados por Lázaro Ramos e Matheus Nachtergaele. Fica evidente a sua total complexidade no seu prólogo, quando a personagem divide a sociedade em duas categorias: os ordinários e os extraordinários – denominando os primeiros como “pessoas corretas, que vivem na obediência e gostam de ser obedientes” e o segundo grupo como “os que criam uma coisa nova, todos os que infringem a velha lei, os destruidores”.

Com soberbo e corajoso desempenho de Guta Stresser, as novidades também ficam por conta pela total harmonia entre os departamentos da produção, como a fotografia em tons sombrios de José Roberto Eliezer e a melancólica trilha sonora orquestrada por Antônio Pinto. São detalhes que fazem a diferença e que auxiliam a nos identificar com a trajetória angustiante de Nina. A sua maior virtude, no entanto, são as ações mais aterradoras que ganham vida nos traços de Lourenço Mutarelli, cultuado desenhista e escritor brasileiro que também inspirou a trama do filme posterior de Dhalia, O Cheiro do Ralo.



Alfredo Sternheim by blogcinemateque
março 5, 2008, 2:44 pm
Filed under: Alex Gonçalves

Os cinéfilos mais novos devem estar mais familiarizados com Alfredo Sternheim com suas constantes colaborações na Revista Set, publicada mensalmente desde Junho de 1987. Porém, poucos devem saber que este jornalista de 65 anos também é escritor, roteirista e diretor. Nascido em São Paulo, este filho de mãe marroquina e pai alemão é uma das pessoas que sabem que o cinema não é feito só de maravilhas, já que desde cedo se tornou um profissional desse meio.

Foi como figurante de Osso, Amor e Papagaios, filme da Vera Cruz de 1956, que Sternheim deu seus primeiros passos no mundo do cinema nacional. A pequena experiência possibilitou que um amplo estudo, através de leituras sobre a história desta fabulosa cultura que é o cinema, fosse feito e a chegada da sua primeira grande chance se deu ao ser convidado como assistente de direção em A Ilha, de 1963. Foi também nesta época que Sternheim recebeu a proposta de trabalhar para o Estadão, ainda que imperasse o receio deles por ele ser jovem demais. Não se intimidou, já que foi capaz de publicar centenas de textos.

É evidente que este revezamento de atividades fez com que Sternheim amadurecesse tanto como cineasta quanto como crítico. “Eu me julgo um cara de sorte por ter sido crítico e cineasta ao mesmo tempo, creio que uma área melhorou a minha atuação em outra”, diz, em entrevista ao Estranho Encontro. O primeiro longa metragem chegou 1971 com Paixão na Praia. Deste filme em diante, o resultado foi mais de vinte filmes como diretor, sendo o último Fêmeas Que Topam Tudo, de 1987. Alguns títulos da sua última década em atividade, como Variações do Sexo Explícito e Sexo em Festa não foram recebidos com comentários amistosos, mas se consagrou como um dos nomes mais importantes dos tempos do Cinema da Boca.

Inclusive, o mesmo escreveu, em 2005, o livro Cinema da Boca: Dicionário dos Diretores, que relembra os nomes mais fluentes daquela época nos cinemas. Sternheim já trabalhou com pessoas até hoje em atividade no mundo artístico, como Nuno Leal Maia, Vera Fischer, e venceu o prêmio de melhor roteiro pela Associação Paulista de Críticos de Arte pelo filme Anjo Loiro (Maia e Fischer participaram do filme). Uma pena que os seus filmes estejam extintos em nosso país. Mas seu profissionalismo naquilo que exerce é algo indispensável. “Sempre me preocupei em ser uma ponte entre filme e público, procurava mais os aspectos positivos dos filmes”, confessa. “Talvez por temperamento e principalmente por conhecer o outro lado do cinema, por vivê-lo intensamente, nunca desrespeitei ninguém, nem o pior filme. Sempre evitei o uso de palavras estigmatizantes, jamais usei o termo ‘canastrão’. Acho definitivo, rude”. Com toda a certeza, um exemplo a ser seguido.