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Donnie Darko by blogcinemateque
maio 30, 2008, 6:41 pm
Filed under: Wally Soares

O clima está pesado. A aura de mistério envolve enquanto uma câmera segue uma estrada até encontrar o adolescente Donnie Darko se levantando, no meio do nada. Acordando para o amanhecer de mais um dia comum em sua vida, e contemplando mais um de seus atos de loucura. Numa simples tomada, o diretor estreante Richard Kelly já nos mostrou excepcionalmente bem que esse simples adolescente é estranhamente único e sofre de alguma espécie de distúrbio. A música sobe e Donnie anda de bicicleta até sua casa, numa das muitas cenas memoráveis do filme. Fato: Kelly é um diretor incomum e original, que acredita não só no poder da música e do visual, mas consegue dizer rios sem ter que seus personagens abram a boca. Um dos elementos mais impressionantes em seu filme é o utilizo da música. A compilação de canções inesquecíveis dos anos 80 serve para ilustrar a época na qual o filme se passa e – muitas vezes – os sentimentos de seu personagem. Fora o fato de conduzir completa nostalgia e serem todas magníficas canções. Uma ferramenta essencial usada pelo diretor não só para fazer o espectador sentir mais a jornada, mas que se torna completamente importante no fluir da narrativa e na criação de estilo e autenticidade.

A obra, portanto, não se limita a isso. Complexo e sedutor, a jornada de Kelly (que também é roteirista) marca pela densidade e a competência com a qual ronda assuntos importantes, sejam eles familiares, morais, éticos ou sociais. Mas mais importante: psicológicos. Ao compor seu personagem maravilhosamente bem, nota-se uma clara submersão no drama psicológico, ao passo que os sentimentos se tornam mais importantes e essenciais para a compreensão da narrativa do que qualquer outro elemento. Darko se torna multidimensional e – mais importante – nós, espectadores, começamos a nos importar por ele. É óbvio, com isso, que o filme seja apoiado completamente no personagem e na sua visão do mundo. Ele tem seus sentimentos particulares e Kelly nos convida a interpretá-los, enquanto Darko se infiltra em uma alucinante história de sonhos, coelhos e viagem no tempo. O prazer de se assistir ao filme é único, graças a forma como ele flui, baseado no estilo original de Kelly e no elenco sempre competente, com destaque à um Jake Gyllenhaal ainda em início de carreira mas completamente admirável. Mas mais prazeroso ainda é tentar compreende-lo. Uma obra para poucos, o filme ronda o drama psicológico ao mesmo tempo em que o gênero da ficção, ao sermos envolvidos não só para dentro de sonhos, pensamentos e sentimentos, mas a uma trama que ousa tocar na complexidade da viagem no tempo, no seu fundamento em relação á realidade. Por isso, apesar de se encaixar no gênero da ficção, o filme de Kelly é realista. Ou seja, quando o céu inesperadamente se escurece, nuvens se tornam ameaçadora e começamos a finalmente entender e encaixar todos os elementos e enigmas que nos foram impostos, não parece que estamos em uma ficção. Acreditamos em tudo que vemos e, mais importante, no que sentimos. O clímax é emocionante e de arrepiar, forte, poderoso e fascinante, em todos os sentidos da palavra.

Primeiro, por causa da surpreendente forma com que Kelly finaliza seu filme, conseguindo com grande êxito não deixar nenhuma ponta solta. Segundo pela carga emocional. Ao som de “Mad World”, Kelly nos mostra todos os seus vários personagens no momento mais crucial da história. Somos tocados pela sensibilidade do cineasta, que investe tanto em seus personagens, e satisfeitos por ele nunca cair no lugar comum, no maniqueísmo e principalmente no desnecessário. Uma obra para muitas visitas, nada aqui é descartável. Por isso valorizo tanto a versão do diretor que, bem mais polida, é ainda visualmente e sonoramente muito mais sedutora, contém mais cenas, todas importantes para o desenvolvimento da trama. A compreensão é aberta, e as interpretações diversas. Teorias rolam soltas mas o sentimento é sempre o mesmo. Donnie Darko é simplesmente um daqueles filmes que toca, profundamente, deixando sua marca no espectador. Por isso é fácil entender o porquê de ser um fenômeno cult tão importante para o cinema e para os cinéfilos.

“Donnie Darko” é, também, um filme subestimado. Muitos se contentam a apenas assisti-lo. Poucos se dão ao trabalho e ao prazer de senti-lo e compreende-lo. Há muito mais do que os olhos vêem nesse filme, que quer falar sobre uma família disfuncional ao mesmo tempo em que realiza uma dura crítica à alienação da sociedade. No meio disso tudo, claras homenagens à força da música, completo domínio de estilo e elenco, além de uma extrema meticulosidade na narrativa, que maravilha, entretém e impressiona. Ora pela autenticidade e a originalidade, ora pelo brilhantismo e a genialidade. Cinema obrigatório, que aguça os sentidos, meche com sua cabeça e te faz pensar sobre os confins do universo, as surpresas que o destino nos reserva, e o quão manipulador e alienada nossa sociedade se torna, ao passo que pessoas param de sentir, se deixam levar pelo comum, pela rotina e pela mediocridade. Kelly demonstra, com isso, dominação completa de seu roteiro, em um exemplo claro do quanto é melhor quando um diretor adapta seu próprio trabalho.

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1 Comentário so far
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Intrigante e extremamente original, é até hoje o único filme com uma história de viagens no tempo e universos paralelos sem furos. E que também seja um exímio trabalho cinematográfico, só temos que aclamar essa obra-prima.

Comentário por Mateus Selle Denardin




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