Cinemateque


12 Homens e uma Sentença by blogcinemateque
maio 30, 2008, 6:53 pm
Filed under: Wally Soares

O ambiente é um só. Os personagens principais são doze. E a tensão vem não de corridas alucinantes, lutas agilizadas e explosões, mas de diálogos. A força do filme que marca a impressionante estréia de Lumet nos cinemas é uma que vem sendo erradicada cada vez mais no cinema contemporâneo, cuja tensão vem mesmo apenas da ação. Era uma vez onde o motriz de um filme se relacionava ao estímulo intelectual, proporcionado por debates, diálogos e personagens multidimensionais, cuja ambigüidade e autenticidade impressionavam e – mais importante – fascinavam a audiência. Nesse filme, temos doze personagens espetacularmente reais e verossímeis, cujas atitudes despertam interesse e diálogos despertam o envolvimento. Por isso, não é de se estranhar que, em menos 30 minutos de filme, já estamos presos, interessados e completamente movidos pelo dilema principal. Quando bate uma hora de filme, estamos exasperados. O desafio moral e psicológico do roteirista genial Reginald Rose é um sensacional, que ganha intensidade nas mãos de Lumet, que carrega seu filme com atmosfera e sempre soando autêntico.

Outro motriz e uma grande virtude do filme é seu elenco. Difícil escolher qual representa mais brilhantismo. De Henry Fonda soberbo à Lee J. Cobb, os doze demonstram capacidade acima do comum. Estão soberbos. A tensão muitas vezes bem deles. Da ambigüidade de uns e da ignorância de outros. Certos momentos do filme o deixam morto de vontade de socar alguém, e outros simplesmente o deixam roendo as unhas ou soando frio. Uma especialidade de Lumet, que mais a frente de sua carreira iria tocar em feridas como em Rede de Intrigas. Seu filme é intensamente relevante, no sentido de não só retratar de uma forma estupenda todas as fraturas do homem e seus pontos fracos, mas ao realizar uma profunda análise de como o sistema judiciário é falho e ultrajante. Culpa da ignorância humana? Talvez.

Lumet não oferece respostas. Seu filme é um turbilhão de questionamentos, que tocam profundamente e mechem com sua cabeça. Dos quase cem minutos de filme, apenas três não se encontram na sala do Júri, que toma o resto do filme. Por isso, o clima de claustrofobia é essencial. Lumet vai deixando seu cenário cada vez menor com sua câmera, como se o ambiente fosse ficando mais enxuto. De repente, doze pessoas é demais para caber naquela pequena sala. Eles começam a soar, nós também. Explico: o filme começa a com uma visão ampla da sala. A distância entre os personagens é perceptível e grande. Mas logo a câmera desce e fica alinhada com os personagens em tamanhos reais. Culminando em um ponto onde foca apenas olhares e facetas. Genial! Mas o mais incrível no filme é a satisfação ao final. Dificilmente encontramos finais assim em histórias como essa, mas a intenção de Lumet é exatamente desmascarar essa palhaçada, e mostrar como deve ser feito. Por isso, é extremamente prazeroso vermos um dos personagens – depois de um comentário extremamente preconceituoso acerca dos pobres – ser mandado sentar e calar a boca. Resultado: ele nunca mais a abre pelo resto do filme. O filme é isso. Satisfação, genialidade e puro brilhantismo. Dificilmente conseguimos tirar de nossa cabeça o personagem de Henry Fonda que, de branco, simboliza a paz com que chega para desmascarar ignorância e hipocrisia. Precisamos de mais jurados – e pessoas – como ele no mundo. E diretores como Lumet no cinema.

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