Cinemateque


Dos quadrinhos para as Telonas by blogcinemateque
abril 19, 2008, 6:17 pm
Filed under: Luciano Lima

Até onde adaptações precisam ser fiéis? O que é relevante numa história inspirada? É realmente importante que nós, como meros expectadores em busca de entretenimento, sejamos obrigados a conhecer a fonte de inspiração de roteiristas e diretores para sentirmos uma experiência plena

Há muito mais por trás de uma adaptação do que a simples transferência. Às vezes é até mesmo necessária uma alteração para que a trama se adapte corretamente ao outro tipo de mídia que pretende atingir. Agrade ou não aos fãs, o que importa é parecer convincente.

Em tantos anos de cinema os números de adaptações são incontáveis. Nos dias de hoje torna-se ainda mais comum o uso histórias contadas através de outras mídias na tentativa de trazer mais pessoas para as salas de projeção, além de introduzir novas pessoas às histórias as quais não tiveram acesso, reforçando assim o lucro em outras áreas.

Uma mídia bastante explorada nos dias de hoje para a criação de superproduções são as histórias em quadrinhos. Um dos filmes mais caros da história do cinema, Homem-Aranha 3, é um ótimo exemplo de como filmes nesse padrão conseguem atingir níveis elevados nas apostas de produtores e distribuidoras. Mas por que Homem-Aranha, Superman, X-Men e Batman (aqui me refiro aos filmes de Burton e Nolan) tornaram-se filmes tão lucrativos? A resposta é simples: Aqueles por trás de cada uma dessas produções tinham em mente mais do que uma simples transferência.

Richard Donner, diretor de Superman (1978), ajudou a abrir caminho da melhor maneira possível. A valorização do ser humano que existia no Homem-de-Aço, através do relacionamento com Lois Lane e do amor que sentia pela raça que o acolheu, foi o bastante para que muitos fãs e leigos tivessem a mesma opinião positiva sobre o longa. É possível, apenas com o filme de Donner, ter uma pista sobre o que aproxima o público de uma produção baseada num super-herói ou em alguma história contada em quadros. Seja qual for o personagem há sempre a possibilidade, por menor que seja, de trazer este para perto daqueles que acompanham sua trajetória, possibilitando algum tipo de identificação. Essa “cumplicidade” só é obtida quando são deixadas de lado todas as artificialidades que insistem em se mostrar mais apelativas na tela que no papel.

Para não ir muito longe, O Motoqueiro Fantasma é um bom exemplo do que um roteiro mecânico e sem criatividade consegue fazer com uma trama de base até interessante. Na mesma linha, Demolidor consegue atingir níveis ainda mais elevados de qualidade que Motoqueiro Fantasma apenas por possuir uma trama menos apelativa e elenco (leia Colin Farrell) ciente do que está acontecendo. O elenco, aliás, é um bom ponto. Reparem na criatividade com a qual Bullseye (Farrell) foi concebido e percebam como Black Heart (interpretado por Wes Bentley) é extremamente caricato. O distanciamento do próprio ator com o personagem que cria é inevitavelmente percebido pelo expectador, como no caso de Ben Afleck (Demolidor) ou Nicolas Cage (Motoqueiro Fantasma). Há também aqueles que, por motivos inexplicáveis, modificam boa parte da essência contida na fonte e criam outra história. É o caso d’O Justiceiro. O fato de ser inspirado não quer dizer que a personalidade do protagonista precisa ser modificada. O filme poderia se chamar qualquer outra coisa e sair ileso de críticas dos fãs de Frank Castle (Justiceiro), além de se sair como um filme de ação mediano.

A quantidade também se torna um grande problema quando o assunto é vilão ou elenco de apoio. A adaptação mais ridícula da década de 1990 (e dos dias de hoje também), Batman e Robin, prova que, sem preparo, quantidade é um risco mais que desnecessário numa trama. Mas não é apenas de excesso no elenco que B&R serve como exemplo. Um filme baseado em elenco famoso, beldades, efeitos e piadinhas infames é uma aula de como fracassar numa produção cinematográfica.

A saga de Batman ainda favorece uma ótima comparação. O que Burton e Nolan fizeram que Joel Schumacher não conseguiu? Vamos por partes. As personalidades são a chave de qualquer trama. Enquanto Burton aproveita as situações para fazer o público se interessar pelos vilões (o memorável Coringa criado por Jack Nicholson, Denny DeVitto e seu sensivelmente grotesco Pingüim e a sensual Mulher Gato de Michelle Pfeiffer) e Nolan consegue êxito em aprofundar-se nos traumas de Wayne, Schumacher torna o protagonista fútil e desperdiça ótimos vilões e atores em tramas limitadas.

Até mesmo na direção de arte há diferenças gritantes de qualidade. A Gotham de Burton é um cenário perturbado, o lar perfeito para os inimigos de Batman ao mesmo tempo que abriga com maestria o cavaleiro das trevas. Nolan prefere aproximar Gotham de uma metrópole convencional, sucateada pela marginalidade e mórbida em essência. Já Schumacher… Uma Grande Boate Psicodélica, esta é a melhor definição do que o diretor fez a cidade do Homem-Morcego com todos aqueles néons e dançarinos contratados como figurantes.

Repare que não há necessidade de fazer comparações entre as revistas. É algo de bom senso. Se farei um filme sobre um homem perturbado por presenciar a morte dos pais quando criança, que se veste de morcego para combater o crime enfrentando inimigos doentios, quais são as escolhas que farei para tornar esse meu personagem mais próximo de algo real?

E é esta proximidade que Raimi, com Homem-Aranha, e Singer, com X-Men, usam como principal atrativo para uma massa sedenta por diversos tipos de entretenimento numa só produção. Conflitos pessoais, efeitos, pancadaria… enfim. Tudo aquilo que um blockbuster é e mais um pouco. Singer praticamente ressuscitou o gênero quando lançou X-Men. Mais que uma produção sobre jovens mutantes, o filme do diretor de Os Suspeitos usou fantasia para levar a tona a afirmação de que preconceito é nada mais que o medo mórbido do diferente. Mas foi Raimi quem conseguiu criar a melhor obra de adaptações de quadrinho.

Peter Parker já era símbolo de muitos nerds quando habitava apenas os quadros de uma revista. Sam Raimi, diretor do fantásticos Evil Dead 1, 2 e 3 (sendo o segundo o melhor filme trash que já vi), tinha a missão de transformar o garoto com poderes de aranha num filme que desse lucro. Peter é um adolescente comum e os poderes que ganha só trazem ainda mais problemas. A própria história criada por Stan Lee proporciona uma aproximação maior com uma massa generalizada de jovens entre 13 e 25 anos, afinal quem nessa idade nunca passou por problemas? Seja com o próprio corpo ou com as pessoas que convivem com você. É uma pena que Raimi tenha cedido aos empresários e fãs insistentes criando um final muito abaixo das expectativas criadas pelos roteiros anteriores, afastando o público da identificação que existia nos primeiros longas.

É tudo uma questão de essência. Lembrando que não comentei sobre filmes que se baseiam em quadrinhos que mais se aproximam da realidade como os ótimos Marcas da Violência, Do Inferno e Ghost World, mas a idéia é a mesma: capturar as idéias e adaptá-las. Parece simples, mas, definitivamente, não é.

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