Cinemateque


Crash – No Limite
Maio 30, 2008, 7:05 pm
Arquivado em: Kamila Azevedo

“Crash – No Limite”, filme que marca a estréia do roteirista Paul Haggis na direção, é mais uma obra que trata sobre a intolerância que é um elemento tão forte dentro de várias sociedades. No longa, vemos como o caminho de pessoas das mais variadas classes sociais e origens étnicas acabam se cruzando no curso de dois dias na cidade de Los Angeles. São eles: Jean (Sandra Bullock), uma dona-de-casa, e o seu marido procurador de justiça (Brendan Fraser); um persa (Shaun Toub) dono de uma loja de conveniência, sua esposa e a filha médica; dois detetives de polícia (Don Cheadle e Jennifer Esposito) que também são amantes; Cam (Terrence Howard), um diretor de televisão, e sua esposa (Thandie Newton); dois ladrões de automóveis (o rapper Chris “Ludacris” Bridges e Larenz Tate); um chaveiro (Michael Peña) e sua filha; dois policiais (o indicado ao Oscar Matt Dillon e Ryan Phillippe); dentre tantos outros.

O filme mostra o encontro de todos estes personagens de duas maneiras completamente distintas. Num primeiro momento, o que eles terão em comum é o fato de que todos encaram a vida de acordo com noções pré-concebidas, as quais estão ligadas aos estereótipos e às generalizações. Eles pecam pela omissão e por seguirem aquilo que é considerado como politicamente correto. Num segundo momento, “Crash – No Limite” retoma um pensamento expresso por Graham, personagem de Don Cheadle, no início do filme. De acordo com o detetive, Los Angeles é uma cidade que mantém seus habitantes atrás de um pedaço de metal ou de vidro. Por causa disso, as pessoas começam a sentir falta do toque e de esbarrar umas nas outras. Na medida em que os personagens de “Crash – No Limite” se colidem e passam por aquelas experiências que irão definir toda uma existência, eles acabam – de uma forma ou de outra – tomando uma posição diante da insignificância de suas vidas ou daquilo que eles acreditam.

É justamente por causa disso que muitos acusam o trabalho de Paul Haggis (que co-escreveu o roteiro do longa ao lado de Bobby Moresco) de hipócrita e manipulador. Mas, a verdade é que “Crash – No Limite” é um filme que incomoda e que, principalmente, acaba fazendo um retrato fiel da sociedade norte-americana, que, após os atentados de 11 de Setembro, ficou ainda mais paranóica, mais insegura e mais desconfiada em relação ao outro. É bom também ficar atento ao final de “Crash – No Limite”. A cena nos mostra que a mudança é um ciclo ininterrupto. Enquanto uns se modificam, outros ainda precisam se colidir uns com os outros.



Tenha Fé
Maio 30, 2008, 6:37 pm
Arquivado em: Kamila Azevedo

Quando decidiu fazer a sua estréia na direção de um longa-metragem, o ator Edward Norton se deparou com um roteiro de um velho amigo chamado Stuart Blumberg intitulado “Tenha Fé”. Acostumado a atuar em histórias densas, Norton ficou muito preocupado com o tom de comédia romântica da trama escrita pelo amigo e procurou o conselho de dois diretores com os quais trabalhou anteriormente: Milos Forman (em “O Povo Contra Larry Flynt”) e David Fincher (em “Clube da Luta’). Os dois foram unânimes em suas opiniões: Edward deveria aproveitar a oportunidade para aprender. O roteiro certo, eles disseram, viria depois.

“Tenha Fé” é uma comédia romântica leve e divertida que conta a história de dois amigos de infância, Jake Schram (Ben Stiller) e Brian Finn (Edward Norton). Eles estão prestes a reencontrar o terceiro vértice dessa amizade que vem desde os tempos de criança, a executiva Anna (Jenna Elfman). O reaparecimento dela transforma o relacionamento dos dois amigos num triângulo amoroso bastante improvável já que Jake é um rabino e Brian é um padre.

Quem conhece um pouco a trajetória pessoa e profissional de Edward Norton irá reconhecer em “Tenha Fé” vários simbolismos, como o fato da história se passar em Nova York (cidade que o ator/diretor ama e na qual vive até hoje) e a presença de Anne Bancroft como a mãe de Jake (afinal “A Primeira Noite de um Homem” é um dos filmes favoritos de Norton). No entanto, o ponto mais importante do filme é que “Tenha Fé” é uma obra surpreendente, na qual Edward mostra toda a sua versatilidade e a sua capacidade na cadeira de direção. Ele está pronto para projetos mais ambiciosos e a sua volta ao posto de diretor está até demorando demais para acontecer.

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Tenha Fé (Keeping the Faith, 2000)

Diretor: Edward Norton

Roteirista: Stuart Blumberg

Elenco: Ben Stiller, Edward Norton, Jenna Elfman, Eli Wallach, Anne Bancroft



Breves Considerações Sobre Livros e Filmes
Abril 19, 2008, 4:45 pm
Arquivado em: Kamila Azevedo

Adaptações

Apesar de possuírem conceitos diferentes, um livro e um filme fazem parte de um sistema ainda mais amplo e totalmente interligado. Quando foi inventado, em 28 de dezembro de 1895, pelos Irmãos Lumière, o cinema se valeu de narrativas já consolidadas na literatura para desenvolver a sua linguagem. Por motivos econômicos, muitos produtores cinematográficos apostam na adaptação de histórias e personagens conhecidos e que fizeram grande sucesso com o público. Ao mesmo tempo, muitas obras literárias são levadas à grande tela, pois possuem temas que são relevantes ao momento atual vivido por cada sociedade – o que permite ao cinema explorar o seu potencial de interação com o mundo.

Mesmo mantendo essa relação de proximidade, não se pode nunca comparar um livro e um filme sem antes se saber que, entre os dois meios, existem diferenças consideráveis, especialmente no que diz respeito à linguagem que cada um deles adota. A principal delas se refere à maneira como cada meio se propõe a contar uma história. Enquanto o escritor utiliza o máximo de recursos verbais para fazer com que o seu leitor visualize a narrativa que ele cria na sua mente; o diretor tem uma gama de recursos dos mais variados (verbais, visuais e sonoros) para fazer com que essas imagens surgidas nas mentes dos leitores se transformem em realidade.

Quando uma obra literária é adaptada para a grande tela, ela recebe o nome de adaptação cinematográfica. Em casos como esse, é sempre bom evitar conceitos como fidelidade à obra originária, já que, livro e filme, devem ser analisados de acordo com o campo no qual estão inseridos. O ideal é perceber a adaptação como um diálogo com o livro que a originou. No final, a boa adaptação cinematográfica é aquela que serve como uma peça de suporte ao livro na qual foi baseada. Ou seja, o filme deve ser uma obra independente do livro, podendo nos ajudar a compreender melhor a sua história ou, em alguns casos, podendo melhorar aquilo que não era tão bom.



Crepúsculo dos Deuses
Março 19, 2008, 3:12 pm
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“Crepúsculo dos Deuses”, filme do diretor Billy Wilder (que co-escreveu o roteiro do filme ao lado de Charles Brackett e D.M. Marshman Jr.), não é o seu típico filme noir. A obra não tem uma femme-fatale ou a influência de livros de ficção policial. No entanto, “Crepúsculo dos Deuses” tem outros elementos que justificam a sua presença nessa escola cinematográfica, pelo fato de que o personagem principal vive num mundo cínico e antipático, por ter uma trama inteligente, por utilizar a técnica de narração confessional e por se passar num ambiente urbano.

Em Hollywood, Sunset Boulevard é conhecido como o palco dos maiores escândalos de celebridades e como o local preferido dos paparazzis. Por coincidência, o número 10086 da Sunset Boulevard é o palco principal de “Crepúsculo dos Deuses”, uma espécie de drama e de comédia negra sobre os bastidores de Hollywood. Logo na primeira cena do filme (uma narração em que é revelado que um assassinato ocorreu em uma das mansões do bairro e vamos conhecer a história por trás disso) já dá para perceber que o tom de “Crepúsculo dos Deuses” é de crítica e desabafo.

Os personagens do filme são um prato cheio nesse sentido. Gloria Swanson interpreta Norma Desmond, uma ex-estrela do cinema mudo, mas que foi abandonada por Hollywood na transição para o cinema sonoro. Ela vive presa ao passado – nada ajuda o fato de que o fiel mordomo Max Von Mayerling (Erich Von Stroheim) fica alimentando o ego de Norma – e sonha com a sua grande volta. Por isso, contrata o roteirista endividado Joe Gillis (William Holden) para escrever o roteiro do filme que a fará ser uma estrela novamente.

O interessante para o roteiro de Billy Wilder, Charles Brackett e D.M. Marshman Jr. é acompanhar como a experiência de viver na mansão de Norma Desmond irá afetar Joe Gillis. Um profissional ambicioso, astuto e autoconfiante, Gillis pensará que está dando um golpe de mestre ao aceitar viver uma situação de conveniência com Norma (com quem ele irá se envolver emocionalmente). No entanto, o destino lhe prega uma peça a partir do momento em que ele começa a se sentir cada vez mais preso dentro daquele mundo irreal e autodestrutivo. É justamente isso que leva aos acontecimentos descritos no início de “Crepúsculo dos Deuses”.

Produzido em 1950, “Crepúsculo dos Deuses” é, antes de tudo, uma crítica ao lado sombrio do ser humano e à indústria cinematográfica hollywoodiana (especialmente ao fato de como ela descarta seu passado rapidamente). No entanto, mais do que isso, o filme é uma lição de como se fazer cinema. Em tela, vemos personagens fracos e moralmente ambíguos, uma direção de arte luxuosa, participação de nomes conhecidíssimos (como Buster Keaton, a jornalista Hedda Hepper e o diretor Cecil B. De Mille) e gravações em ambientes externos reais (e não recriados em estúdio). Com certeza, é um dos melhores filmes produzidos por Billy Wilder e uma obra que rendeu algumas das cenas mais clássicas do cinema – só para citar uma: o momento final do filme, em que uma lunática Norma Desmond olha para as câmeras, prestes a brilhar por uma última vez e diz: “All right, Mr. De Mille, I’m ready for my close up”.



Sexo com Amor?
Março 5, 2008, 2:22 pm
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Baseado em uma película chilena, “Sexo com Amor?” é o filme que marca a estréia do diretor Wolf Maya no cinema. Assim como o colega Jorge Fernando, que estreou com “Sexo, Amor e Traição”, Maya escolhe uma história que fala sobre as dificuldades do casamento. Na obra, somos apresentados a diversos casais, de origens sociais diferentes, mas com um problema em comum: todos eles estão insatisfeitos com algum aspecto de seus respectivos relacionamentos.

São eles: Mônica (Marília Gabriela) e Jorge (José Wilker), Rafael (Reynaldo Gianecchini, também produtor executivo do filme) e Paula (Malu Mader), Pedro (Eri Johnson) e Mara (Maria Clara Gueiros). Entre esses casais, temos a presença da professora Luísa (Carolina Dieckmann), a amante de Jorge; Aline (Danielle Winits), Patrícia (Guilhermina Guinle) e Juliana (Nanda Costa), os casos de Rafael; e Ângela (Natasha Haydt), a sobrinha gaúcha de Pedro, e que aparece para atormentar a vida dele.

O roteiro de Renê Belmont, que foi escrito com a colaboração de Alessandro Marson, trabalha com muitas figuras estereotipadas, como a vizinha fofoqueira, o amigo gay, o homem que é o sonho de qualquer mulher, entre outras. No entanto, não é nem essa falta de originalidade o que mais incomoda em “Sexo com Amor?”. O problema maior do filme é a visão machista que ele possui. Todos os personagens principais masculinos da obra traem suas esposas, mas, na primeira suspeita de que eles são os traídos, fazem o maior escândalo. Além disso, algumas das personagens do filme são muito submissas e não tomam qualquer tipo de atitude contra o que está escancarado na cara delas.

No final, de todas as tramas de “Sexo com Amor?”, a mais interessante acaba sendo a do casal suburbano formado pelo taxista Pedro e pela dona-de-casa Mara. Casados há um bom tempo e envolvidos nos problemas do dia-a-dia, os dois não têm mais tempo para si mesmos. A perda do apetite sexual, aparentemente, não é um problema até que a sobrinha Ângela chega para visitá-los. O ganho de auto-estima que vem do fato de se verem atraentes pelos olhos dos outros só faz com que o relacionamento deles melhore. É, de longe, a história mais real – e engraçada – de todas as que vemos durante os 90 minutos de filme. 

Sexo com Amor?
(Sexo com Amor?, Brasil, 2008)

Gênero: Comédia, Romance

Duração: 90 min.

Tipo: Longa-metragem / Colorido

Distribuidora(s): Fox Filmes do Brasil

Produtora(s): Total Entertainment

Diretor(es): Wolf Maya

Roteirista(s): Rene Belmonte, Boris Quercia Martinic¹, Alessandro Marson

Elenco: Carolina Dieckmann, Marília Gabriela, Reynaldo Gianecchini, Malu Mader, José Wilker, Eri Johnson, Maria Clara Gueiros, Alexandre Piccini, Danielle Winits, Erom Cordeiro, Felipe Latge, Guilhermina Guinle, Ítalo Rossi, Mara Manzan



Jogo Subterrâneo
Março 5, 2008, 2:18 pm
Arquivado em: Kamila Azevedo

Todo dia, o pianista Martin (Felipe Camargo) faz tudo sempre igual. Após acordar, ele veste uma venda e se dirige a um grande painel que decora um dos cômodos do quarto de hotel no qual ele mora. No painel, estão discriminadas as rotas do metrô de São Paulo. Aleatoriamente, Martin escolhe uma linha de metrô, se dirige à estação e entra no trem em questão. Nele, Martin – outra vez aleatoriamente – escolhe uma passageira e desenha uma rota de viagem para ela. Martin imagina seu nome, o que ela faz, de onde ela veio. Se a mulher escolhida fizer a rota que ele imaginou para ela, Martin terá a certeza de que a passageira é a mulher de sua vida.

A adrenalina, a tensão e o perigo que envolvem o jogo que Martin realiza todos os dias são o período de maior vivacidade da apática vida do pianista. Ele vive para encontrar a mulher que lhe trará felicidade. Ele torce e sonha com o momento em que ela irá aparecer. “Jogo Subterrâneo”, filme do diretor Roberto Gervitz, acompanha um momento muito especial deste jogo que Martin realiza: quando o pianista se divide entre duas mulheres tão diferentes – Ana (a ótima Maria Luisa Mendonça) e a tatuadora vivida pela não menos competente Daniela Escobar – que farão com que Martin questione o jogo com o qual “brinca” diariamente e, em alguns momentos, se torne uma marionete do próprio jogo que criou.

Baseado no conto “Manuscrito Encontrado em um Bolso”, de Julio Cortázar, “Jogo Subterrâneo” é um filme brasileiro que merece ser descoberto pelo público. Tudo na produção deu certo: o roteiro foi muito bem construído; as estações de metrô foram um espaço tão bem aproveitado, que possuem um papel tão importante quanto o de Martin para o filme; a direção de Gervitz e os atores estão bastante seguros e envolvidos com o filme e a trilha sonora ilustra com perfeição a divisão de Martin.

Entretanto, o ponto mais forte de “Jogo Subterrâneo” é a sua aparência cosmopolita. Ao contar a história de um homem com uma rotina chata e que encontra o calor da vida – e uma razão para viver – em um lugar tão inesperado como o metrô, Roberto Gervitz elimina a “brasilidade” do seu filme. Em “Jogo Subterrâneo”, não há violência, corrupção ou a fina ironia que caracterizam muitos dos filmes nacionais, e sim pedaços de uma vida real. Uma vida que poderia ser a de qualquer pessoa não importando o lugar de onde viemos.

Jogo Subterrâneo 
(Jogo Subterrâneo, Brasil, 2004) 
Gênero: Romance 
Tipo: Longa-metragem / Colorido  
Distribuidora: Buena Vista 
Produtora(s): Vagalume Produções Cinematográficas 
Diretor(es):
Roberto Gervitz  
Roteirista(s):
Roberto Gervitz, Jorge Durán, Julio Cortázar   
Elenco:
Felipe Camargo, Daniela Escobar, Julia Lemmertz, Maria Luísa Mendonça, Maitê Proença, Thávyne Ferrari, Fausto Maule, Zé Victor Castiel 



Juno
Fevereiro 22, 2008, 9:11 pm
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Quando foi lançado nos cinemas norte-americanos, “Juno”, filme do diretor Jason Reitman, foi logo comparado à obra “Pequena Miss Sunshine”, da dupla Jonathan Dayton e Valerie Faris. Em comum entre as duas películas há muito pouco (já que o tema delas é completamente diferente), no entanto o mais importante é saber que “Juno” e “Pequena Miss Sunshine” são os filmes independentes mais bem-sucedidos dos últimos dois anos, chegando a receber, inclusive, o mesmo número de indicações ao Oscar.  

A história da jovem Juno McGuff (Ellen Page), que se descobre grávida do melhor amigo (Michael Cera); e, com o apoio de amigos e família, decide dar a criança que espera para a adoção do casal Mark (Jason Bateman) e Vanessa Loring (Jennifer Garner) é contada de forma simples, mas cativante. E é impossível ficar imune a toda a transformação pela qual passará a jovem durante o filme. 

Indicado a 4 Oscars (Melhor Atriz, Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original), “Juno” é o maior sucesso de bilheteria dentre os indicados na categoria principal dos Academy Awards. A favor do filme, além disso, o fato de que a obra virou um fenômeno pop, com frases da personagem principal sendo citadas por jovens ao redor dos Estados Unidos e com a excelente venda da trilha sonora – que, na semana passada, liderava a parada da Billboard. 

No domingo, dia 24 de Fevereiro, quando serão entregues as estatuetas do Oscar 2008, “Juno” chegará com chances concretas de conquistar somente um prêmio da Academia: na categoria de Melhor Roteiro Original para a ex-stripper Diablo Cody. A indicação para Jason Reitman já é a vitória para esse talentoso diretor. 

No entanto, “Juno” pode pintar como zebra em Melhor Filme e Melhor Atriz. Este é um cenário possível se acontecer a divisão de votos entre os dois favoritos à premiação nas respectivas categorias. Ou seja, se “Sangue Negro” e “Onde os Fracos Não Têm Vez” e Marion Cotillard e Julie Christie dividirem as atenções dos votantes, pode ser que tenhamos as duas maiores surpresas no Oscar desde que “Shakespeare Apaixonado” superou “O Resgate do Soldado Ryan”, em 1999, e Adrien Brody suplantou Daniel Day-Lewis em 2003. É esperar para ver.



Medo da Verdade
Fevereiro 22, 2008, 9:09 pm
Arquivado em: Kamila Azevedo

Baseado no livro de Dennis Lehane (autor de “Sobre Meninos e Lobos”, livro que foi adaptado pela dupla oscarizada Brian Helgeland e Clint Eastwood), o filme “Medo da Verdade” já causava curiosidade desde a sua pré-produção por se tratar da estréia do ator Ben Affleck na direção de um longa-metragem. Ao assistir ao filme, se entende o por quê de tanta atração: a história do desaparecimento de Amanda McCready (Madeline O’Brien) e da investigação feita por policiais e pelo casal de detetives particulares Patrick Kenzie (Casey Affleck) e Angie Gennaro (Michelle Monaghan) é fascinante por suas reviravoltas e pelo final que exige uma reflexão importante por parte da platéia. 

Entretanto, é no primeiro ato desse filme que se revela um dos maiores pontos positivos de “Medo da Verdade”: a atuação de Amy Ryan como Helene McCready, a mãe alcoólatra, viciada em drogas e completamente negligente da adorável Amanda. Atriz de 39 anos, com uma carreira consolidada no teatro nova-iorquino (sendo, inclusive, indicada a dois prêmios Tony), Ryan tem, em “Medo da Verdade”, a sua primeira grande chance no cinema.

E que papel! Helene McCready e suas incongruências dominam a primeira parte de “Medo da Verdade”. Num sotaque típico dos moradores da região de Dorchester (subúrbio de Boston no qual se passa a trama do livro/filme), Amy Ryan entrega falas bombásticas com uma naturalidade que chega a ser assustadora. Você terá ódio de Helene McCready e, depois, quando ela se dá conta da situação na qual se encontra, você terá vontade de ver mais dela. É uma participação curta (não tanto quanto a de Ruby Dee, em “O Gângster”), mas totalmente marcante e merecedora da indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. 

Indicação esta que é a única recebida por “Medo da Verdade” no Oscar 2008. Pela sua performance como Helene McCready, Amy Ryan venceu três dos quatro prêmios mais importantes da crítica norte-americana – Los Angeles Film Critics, National Board of Review, New York Film Critics Circle; perdendo somente no National Society of Film Critics –, além do Broadcast Film Critics Association. Porém, Amy Ryan parou por aí. Não venceu nem o Golden Globe Awards ou o Screen Actors Guild Awards.  

Para sorte dela, a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante é a mais indefinida do Oscar 2008. Com exceção de Saoirse Ronan, todas as indicadas possuem chances de vencer. Ruby Dee chega ao Kodak Theater como favorita por ter sido a vencedora do SAG Awards. Mesmo assim, não podemos descartar Cate Blanchett e Amy Ryan (muita gente acredita que a vencedora será uma delas) ou Tilda Swinton (que, na hipótese de divisão de votos entre Blanchett e Ryan, pode sair com o Oscar nas mãos no domingo).



Um Clarão nas Trevas
Fevereiro 15, 2008, 9:16 pm
Arquivado em: Kamila Azevedo

O gênero de suspense é acostumado a nos apresentar a personagens que possuem algum tipo de limitação física e se vêem envolvidos em situações que exigem tudo do ponto de vista psicológico deles. Foi assim com o personagem interpretado por James Stewart no clássico “Janela Indiscreta” e com o escritor vivido por James Caan em “Louca Obsessão”. E este também é o caso de Susy Hendrix, mulher interpretada por Audrey Hepburn no filme “Um Clarão nas Trevas”, do diretor Terence Young.

Baseado na peça de Frederick Knott (autor também do material original que originou “Disque M Para Matar”), “Um Clarão nas Trevas” tem um começo bastante didático. Homem (Jean Del Val) confecciona um boneca recheada de heroína. Mulher (Samantha Jones) transporta o brinquedo de Montreal até os Estados Unidos, aonde entrega o produto para um fotógrafo chamado Sam Hendrix (Efrem Zimbalist Jr.) – que não sabe da existência das drogas. Quando ela e seu cúmplice tentam reaver a posse da boneca, os problemas começam.

É a partir deste momento que “Um Clarão nas Trevas” se transforma num puro filme de suspense. Em um único ambiente (o apartamento do casal Hendrix), acompanhamos a jornada de Susy (Hepburn), a esposa de Sam. Ela ainda está em fase de adaptação ao mundo depois de ficar cega e terá que lutar pela sua sobrevivência em meio à encenação armada pelo aterrorizante Roat (Alan Arkin) e pela dupla Carlino (Jack Weston) e Mike Talman (Richard Crenna).

O diretor Terence Young pode não ser um mestre do suspense como Alfred Hitchcock, mas entrega um filme tenso, cujo clímax é agoniante. O fundamental em “Um Clarão nas Trevas” é a qualidade do roteiro de Robert e Jane-Howard Carrington, que apresenta todos os elementos vistos em tela com muita calma, numa preparação para o momento mais importante do filme. Também é oportuno destacar a atuação da dupla Audrey Hepburn e Alan Arkin. Ela, numa interpretação que lhe rendeu sua quinta indicação ao Oscar de Melhor Atriz. E ele, numa atuação que cria um dos vilões mais bizarros e malvados do gênero. Seu Roat consegue evoluir do homem frio à mestre dos disfarces e, finalmente, ao assassino frio e psicótico do final com uma destreza que nos deixa, literalmente, como Susy. Estamos todos no escuro com ela.


Um Clarão nas Trevas
(Wait Until Dark, EUA, 1967)
Gênero: Crime, Drama, Suspense
Duração: 107 min.
Tipo: Longa-metragem / Colorido
Produtora(s): Warner Bros. Pictures
Diretor(es): Terence Young
Roteirista(s): Frederick Knott, Robert Carrington
Elenco: Audrey Hepburn, Alan Arkin, Richard Crenna, Efrem Zimbalist Jr., Jack Weston, Samantha Jones (2), Julie Herrod, Robby Benson, Jean Del Val, Gary Morgan, Frank O'Brien