Arquivado em: Kamila Azevedo

“Crepúsculo dos Deuses”, filme do diretor Billy Wilder (que co-escreveu o roteiro do filme ao lado de Charles Brackett e D.M. Marshman Jr.), não é o seu típico filme noir. A obra não tem uma femme-fatale ou a influência de livros de ficção policial. No entanto, “Crepúsculo dos Deuses” tem outros elementos que justificam a sua presença nessa escola cinematográfica, pelo fato de que o personagem principal vive num mundo cínico e antipático, por ter uma trama inteligente, por utilizar a técnica de narração confessional e por se passar num ambiente urbano.
Em Hollywood, Sunset Boulevard é conhecido como o palco dos maiores escândalos de celebridades e como o local preferido dos paparazzis. Por coincidência, o número 10086 da Sunset Boulevard é o palco principal de “Crepúsculo dos Deuses”, uma espécie de drama e de comédia negra sobre os bastidores de Hollywood. Logo na primeira cena do filme (uma narração em que é revelado que um assassinato ocorreu em uma das mansões do bairro e vamos conhecer a história por trás disso) já dá para perceber que o tom de “Crepúsculo dos Deuses” é de crítica e desabafo.
Os personagens do filme são um prato cheio nesse sentido. Gloria Swanson interpreta Norma Desmond, uma ex-estrela do cinema mudo, mas que foi abandonada por Hollywood na transição para o cinema sonoro. Ela vive presa ao passado – nada ajuda o fato de que o fiel mordomo Max Von Mayerling (Erich Von Stroheim) fica alimentando o ego de Norma – e sonha com a sua grande volta. Por isso, contrata o roteirista endividado Joe Gillis (William Holden) para escrever o roteiro do filme que a fará ser uma estrela novamente.
O interessante para o roteiro de Billy Wilder, Charles Brackett e D.M. Marshman Jr. é acompanhar como a experiência de viver na mansão de Norma Desmond irá afetar Joe Gillis. Um profissional ambicioso, astuto e autoconfiante, Gillis pensará que está dando um golpe de mestre ao aceitar viver uma situação de conveniência com Norma (com quem ele irá se envolver emocionalmente). No entanto, o destino lhe prega uma peça a partir do momento em que ele começa a se sentir cada vez mais preso dentro daquele mundo irreal e autodestrutivo. É justamente isso que leva aos acontecimentos descritos no início de “Crepúsculo dos Deuses”.
Produzido em 1950, “Crepúsculo dos Deuses” é, antes de tudo, uma crítica ao lado sombrio do ser humano e à indústria cinematográfica hollywoodiana (especialmente ao fato de como ela descarta seu passado rapidamente). No entanto, mais do que isso, o filme é uma lição de como se fazer cinema. Em tela, vemos personagens fracos e moralmente ambíguos, uma direção de arte luxuosa, participação de nomes conhecidíssimos (como Buster Keaton, a jornalista Hedda Hepper e o diretor Cecil B. De Mille) e gravações em ambientes externos reais (e não recriados em estúdio). Com certeza, é um dos melhores filmes produzidos por Billy Wilder e uma obra que rendeu algumas das cenas mais clássicas do cinema – só para citar uma: o momento final do filme, em que uma lunática Norma Desmond olha para as câmeras, prestes a brilhar por uma última vez e diz: “All right, Mr. De Mille, I’m ready for my close up”.
3 Comentários até o momento
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Acredite, ainda vi esse clássico. Não me subestime por isso, rsrsrs.
Comentário por Pedro Henrique maio 2, 2008 @ 7:06 pmÓtimo texto Kamila.
Abraço!
Queria ver se alguém em Hollywood teria peito para fazer um filme desses novamente – um filme que literalmente execra todo o “sonho” e “fantasias” do cinema, sem piedade de nada. Um clássico, grandioso, arrebatador e principalmente inesquecível.
Comentário por Weiner janeiro 19, 2009 @ 1:40 am[...] “Crepúsculo dos Deuses é, antes de tudo, uma crítica ao lado sombrio do ser humano e à indústria cinematográfica hollywoodiana (especialmente ao fato de como ela descarta seu passado rapidamente). O filme é uma lição de como se fazer cinema. Em tela, vemos personagens fracos e moralmente ambíguos, uma direção de arte luxuosa, participação de nomes conhecidíssimos e gravações em ambientes externos reais (e não recriados em estúdio). Com certeza, é um dos melhores filmes produzidos por Billy Wilder e uma obra que rendeu algumas das cenas mais clássicas do cinema”. Kamila Azevedo, CINÉFILA POR NATUREZA, publicado no CINEMATEQUE. [...]
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